Forma, conteúdo e o que é literatura

Imagem tipográfica quadrada em preto sobre papel branco felpudo: uma mão segura uma bolsa aberta, para onde escorrem rostos masculinos e femininos em igual proporção, letras dispersas e livros em miniatura. Os elementos descem em fluxo livre, misturados, sem funil ou moldura, evocando a ideia de seleção, debate e condensação simbólica. Estilo de impressão manual, com textura visível e traços reminiscentes de gravura.
Em maio de 2025, um jornal de circulação nacional publicou uma lista dos "melhores livros brasileiros de literatura do século 21". O jornal apresentava sua lista como uma representação das principais obras literárias, escritas por autores e autoras brasileiras, publicadas no país a partir de 1º de janeiro de 2001.

A lista se baseava num levantamento junto a mais de 100 pessoas, entre as quais críticos literários, donos de livrarias, jornalistas, curadores de festivais, escritores e pesquisadores universitários. Ela tinha como principal característica a diversidade das obras, abrangendo romances, contos e poesia.

Dos porões da academia, ergueram-se vozes de protesto. Não para questionar ou debater a lista proposta pelo jornal, mas para desmerecer algumas das obras mencionadas. Constavam da lista em função do conteúdo, e não da qualidade estética, sugeriam essas vozes incomodadas.

Da intensa diversidade de livros presentes na lista do jornal, o argumento dos acadêmicos se dirigia a um grupo específico: aqueles que, em sua visão, representavam o "triunfo da negritude". Eis aqui um excelente exemplo da colonialidade no meio intelectual do país.

O exercício do viés

O argumento de que o conteúdo predomina sobre a forma foi levantado num comentário publicado pelo jornal no mesmo dia. A autora - ensaísta e crítica literária - apontava o predomínio, na lista dos melhores livros, de obras que retratavam literariamente, em maior ou menor medida, um país forjado pela escravidão.

Estariam quase ausentes livros que abordassem temáticas distintas - da mulher, queer, indígena ou explicitamente políticas. Mas por que o foco somente nesses e não em outros temas, uma vez que são tão variados? O tema urbano, o tema da periferia, o tema da paternidade, ou o tema do nortista? O foco se dirigia ao acesso e representação literária de grupos marginalizados.

Outros cantos de sereia repercutiram o mesmo ponto de vista. A arte literária contemporânea no mundo, em particular no Brasil, sofreria de uma ênfase no conteúdo em detrimento da forma. Pouca atenção estaria sendo dedicada ao trabalho com a linguagem. Ganhavam proeminência os estudos literários das "questões temáticas".

Bem, o mundo é bastante vasto. Afirmar sobre a existência de um fenômeno mundial significa que ele ocorre na literatura dos países da Ásia, nos países árabes, nos países africanos, extensivamente na América Latina. Em todos esses lugares, será relevante a questão do conteúdo em detrimento da forma no debate da literatura?

Ou será que esse argumento não passa de mais um artefato simbólico da colonialidade, nova roupagem para a velha hierarquização cultural?

Somente um exaustivo escrutínio histórico e estético da atual produção cultural brasileira poderia sustentar o diagnóstico de que o conteúdo predomina sobre a forma. Na ausência de tal estudo, escrutine-se o material que deu origem à polêmica: a lista dos "melhores livros brasileiros de literatura do século 21".

O conteúdo da lista

Outro comentário a respeito da lista, publicado pelo jornal no mesmo dia, aponta justamente para a diversidade de livros. Interpreta essa característica como um sinal de enfraquecimento do sistema de exclusão de autores - em função de outros critérios que não estéticos - que historicamente vigora no país.

De fato, ao se considerar os 25 melhores livros citados pelo jornal, verifica-se de pronto a dificuldade de os reunir sob uma mesma categoria. Eles tratam de uma ampla pluralidade de experiências ficcionais, envolvendo homens e mulheres em distintos ambientes - urbano, periférico, rural, doméstico.

Em relação às mulheres, elas representam 8 dos 25 melhores livros citados pelo jornal, ou um terço do total. Pode-se considerar essa participação feminina como quase ausente, segundo a versão daqueles que protestaram?

Ressalte-se que as questões ligadas às mulheres, bem como aquelas das heranças da escravidão, de LGBTQIA+ ou outros grupos, em vez de conteúdo, surgem num texto como vivência ou experiência de vida. Simultâneos conteúdos se misturam no interior de um livro. Eles ganham, no caso de autores desses grupos, tonalidades que buscam representar sua realidade.

O jornal publicou a lista acompanhada de pequenos trechos das justificativas da escolha das pessoas consultadas. Sem causar surpresa, para praticamente todos os 25 livros, as justificativas mencionam o aspecto formal como um critério de escolha.

Se a diversidade constituía a principal característica da lista, se os livros traziam múltiplos conteúdos, e se a forma foi um critério de escolha, de onde adviria o suposto favorecimento de obras cujo conteúdo referisse aos efeitos da escravidão?

Tomando-se esse tipo de recorte, a lista se distingue por trazer, nas três primeiras posições - portanto como os três melhores publicados desde 2001 - livros que incorporam em alguma medida essa perspectiva. Eis então que encontramos o motivo para o grito de protesto.

Estamos diante não da análise de um fenômeno concreto, sequer da análise de obras concretas de literatura, mas de um incômodo. Aqui, sim, pode-se afirmar com precisão que o conteúdo se sobrepôs à forma. O incômodo se originou ao se deparar com a herança da escravidão considerada como "alta" literatura.

Protesta-se contra a legitimidade cultural obtida pela representação de uma condição não autorizada a circular no meio erudito. Contra mecanismos institucionais que permitiram tal circulação e reconhecimento. Contra mudanças sociais que ampliaram o espaço público para vozes antes marginalizadas.

É a colonialidade se manifestando numa de suas piores faces: o racismo.

Forma e conteúdo

Em literatura, não se considera a ideia de que “conteúdo” e “forma” sejam dois vetores estanques. O conteúdo só existe enquanto forma: a narração de uma história se compõe de escolhas técnicas ligadas à forma - operações estilísticas - que preservem a integridade do conteúdo.

Efeitos do conteúdo se imprimem na forma, e vice-versa. A adoção de oralidade ou de um registro mais formal, opções de fluxo narrativo ou tantos outros recursos formais respondem às demandas de expressão dos personagens e de suas experiências. A forma pode até mesmo desafiar a gramática normativa ou noções de erudição.

A criação, o consumo e a crítica de obras literárias trazem em si um repertório histórico e social, que contribui para a formação de horizontes de entendimento sobre forma - estilo - e conteúdo. Todo livro inclui escolhas sobre procedimentos linguísticos, a estrutura do texto e a narração. O diagnóstico de que o conteúdo está se sobrepondo à forma depende de uma análise e exposição concreta dos fatores que levaram a tal conclusão.

Na ausência dessa análise, as vozes de protesto estão, na verdade, afirmando que certas obras literárias não atendem a uma preferência particular no modo de lidar com a forma. Trata-se de uma afirmação opaca e carregada de um juízo de valor anterior e externo a qualquer livro.

Ironicamente, o emprego de fatores externos para a compreensão das produções literárias consistia na abordagem vigente no início do século XX. Em contraposição a ela, surgiu a escola do formalismo, para o qual uma obra se compunha de elementos internos, ligados à materialidade da linguagem, e a partir dos quais deveria ser estudada.

A história da crítica literária incluiu desenvolvimentos em que se interpretava a qualidade estética como um campo autônomo. Sofreu revisões, alertas de que não se poderia desprezar a inserção da obra em seu contexto sociocultural, sendo a literatura expressão de uma sociedade em transformação.

A crítica se desdobrou em autocrítica, pois julgamentos estéticos também estão sob influência de fatores sociais e relações de poder. Critérios de valor literário não são neutros - reproduzem hierarquias raciais e coloniais, naturalizando padrões construídos em contextos de exclusão.

O exercício da crítica

Apesar de toda a polêmica desse episódio, o fato mais preocupante foi, desde o princípio, um aparente compromisso do debate com o foco no conteúdo, em vez de na forma. Corrijamos aqui essa lacuna, começando por expor a escolha editorial do jornal responsável pela lista dos "melhores livros brasileiros de literatura do século 21".

A publicação da lista foi acompanhada por dois comentários, planejados para funcionar como pontos de vista opostos: um positivo, elencando méritos; outro negativo, com a exposição de deficiências. Era essencial, contudo, que ambos compartilhassem o mesmo tipo de foco: falassem exclusivamente do conteúdo da lista, e não de sua forma.

Pode-se ler essa estratégia como a construção artificial de uma polêmica, a partir da opinião de pessoas externas ao jornal - portanto sem prejudicá-lo -, com vistas a impulsionar a circulação e consumo da lista publicada. E a exploração de argumentos provocativos consiste no segredo de uma boa polêmica. Nos bastidores, movendo os mecanismos, estava o interesse comercial.

Dessa forma, as vozes de protesto contra o predomínio do conteúdo sobre a forma estavam, na verdade, promovendo o conteúdo da lista dos "melhores livros brasileiros de literatura do século 21". O mundo pode ser bastante vasto, mas dá voltas.

De acordo com o próprio jornal, após contatar mais de 100 pessoas que participariam do levantamento, elas foram orientadas a indicar dez livros que "não poderiam ficar de fora de uma seleção que reunisse o melhor da literatura brasileira do século 21". Entre as orientações do jornal, incluía-se que as obras fossem escritas por autores e autoras brasileiras, bem como publicadas por editoras brasileiras.

Além disso, as listas individuais deveriam priorizar obras literárias em detrimento de livros teóricos ou didáticos. Cada pessoa elegeu seus próprios critérios na escolha dos livros. Não havia necessidade de preparar uma lista hierárquica, que apresentasse os livros em ordem de classificação. O próprio jornal, aliás, ressaltou que as pessoas manifestaram um ponto de vista em comum, da "impossibilidade de definir um pódio incontestável quando se trata de literatura".

Verifica-se que o levantamento organizado pelo jornal se assemelhava às críticas de rodapé, que ocupavam a imprensa no início do século XX, antes do desenvolvimento no país da crítica literária profissionalizada. A crítica de rodapé era uma resenha de livro, baseada nas impressões imediatas da leitura, e não uma análise de qualidades estéticas.

O processo de consulta resultou num apanhado diverso, reunindo, a partir das opiniões e gostos pessoais, um conjunto de leituras favoritas. Esse material não continha uma avaliação de qualidade estética, tampouco uma classificação hierárquica, sendo a heterogeneidade o seu principal traço.

Efeito Denorex

As listas, como bem notou CF Scuo, converteram-se na forma textual por excelência do século XXI. No ambiente digital dominado por empresas de tecnologia, funcionam como tática de compartilhamento de conteúdo. A opção do jornal em produzir, a partir do material submetido pelas pessoas consultadas, uma lista dos "melhores livros brasileiros de literatura do século 21" atendia menos ao conteúdo do que ao formato.

Como formato textual, a lista é central na economia da atenção da internet. Teóricos da mídia analisam como a comunicação digital favorece formas curtas, fragmentadas e escaneáveis que geram engajamento rápido. A lista é uma forma que simplifica a complexidade e facilita uma interação instantânea, sendo ideal para a circulação viral.

Essa opção pela lista hierárquica não atendia nem ao rigor jornalístico nem aos requisitos da crítica literária. Pautava-se, a contar também o estratagema de gerar polêmica durante o seu lançamento, pela lógica mercadológica de gerar um produto propagável por mídias sociais ou aplicativos de mensagens, prendendo a atenção dos usuários.

O segredo da lista do jornal foi o efeito Denorex. Na década de 1980, a propaganda dessa marca de xampu alcançou enorme sucesso com o bordão "parece, mas não é". A lista do jornal se faz passar como juízo de valor dos melhores livros do século 21, mas não é. Parece uma análise rica, sendo limitada. E parece diversa, não o sendo.

É o que demonstra o último dado relevante da lista: dos 25 melhores livros citados pelo jornal, 22 foram publicados pelo maior grupo editorial brasileiro. Nenhum sinal de diversidade do ponto de vista mercadológico, cujos interesses se difundem estando em forma.




Por Ana Clara Melo
Crítica Literária