Não estamos dando a devida atenção à poluição por plásticos. Material artificial produzido pela indústria e pela ciência, os plásticos ganharam centralidade nas sociedades contemporâneas. Estão por toda parte e são descartados no ambiente em volumes extraordinários, diariamente.
A mesma ciência que os popularizou também atribuiu ao plástico um risco relativamente baixo para pessoas e ecossistemas. Por décadas, foram considerados inertes, não tóxicos e com riscos de saúde reduzidos, cujo principal problema residia apenas no tempo de degradação.
Essa visão considerava sobretudo o destino macroscópico (lixo visível), subestimando processos físico-químicos e biológicos que tornam os resíduos plásticos mais perigosos.
A realidade mostrou o erro dessa avaliação inicial. Muitos plásticos contêm aditivos e impurezas com potencial tóxico. Sob certas condições, polímeros e seus produtos de degradação apresentam propriedades biológicas ativas, com efeitos pró-cancerígenos, endócrinos e inflamatórios.
Além disso, uma vez no ambiente, o plástico tende não à “decomposição”, mas à fragmentação física em partículas cada vez menores. Quebram-se em micropartículas (microplásticos; convencionamente <5 mm) e nanopartículas (<100 nm). Essas micropartículas plásticas já foram detectadas em praticamente todos os compartimentos ambientais - oceano, água doce, solo e atmosfera - e também em seres vivos, desde invertebrados até mamíferos.
Detectou-se micro e nanoplásticos em tecidos humanos e fluidos biológicos, incluindo placenta, sangue e outros órgãos, demonstrando que o plástico invade e se distribui pelo organismo.
Isso preocupa, pois o pequeno pode ter efeitos desproporcionais. As partículas microscópicas interagem com células, proteínas e comunidades microbianas. Possuem o potencial de alterar processos fisiológicos e ecológicos em escalas temporais longas.
Bactérias e transformações planetárias
Há cerca de 2,4 bilhões de anos, o planeta apresentava uma configuração bastante diferente. A atmosfera se compunha de nitrogênio, dióxido de carbono e metano, e era tóxica. Sem oxigênio, não existia a camada protetora de ozônio. Os raios ultravioleta do Sol atingiam a superfície terrestre.
Os oceanos eram dominados por microrganismos anaeróbicos que extraíam energia de fontes inorgânicas. Dessas comunidades primordiais surgiram cianobactérias capazes de fotossíntese, organismos que, ao prosperarem, modificaram a composição química do oceano, oxigenando as águas e, subsequentemente, a atmosfera, num processo duradouro conhecido como Grande Oxidação.
Gerou-se uma profunda transformação do planeta. Formou-se, por exemplo, a camada de ozônio, alterou-se a química da superfície terrestre e abriu-se caminho para novas formas de vida mais complexa. Especula-se que a Grande Oxidação, no entanto, representou o fim do domínio dos microrganismos anaeróbicos, talvez mesmo uma extinção massiva desse tipo de vida.
Por outro lado, a disseminação do oxigênio pelo planeta inaugurou condições propícias para a evolução de formas de vida mais complexas.
Micropartículas plásticas como “cianobactérias” antropogênicas?
Não seria exagero comparar a poluição plástica atual com a oxigenação da Terra por cianobactérias, um processo monumental que levou estimados 300 milhões de anos. O monumental também é uma das características das sociedades geradas após a Revolução Industrial, que manipulam e consumem volumes crescentes de matéria e energia.
Em cerca de 50 anos, a produção mundial de plástico ficou 200 vezes maior. De acordo com estimativas da OECD, ela quadruplicou entre 2000 e 2019, atingindo cerca de 460 milhões de toneladas por ano. Desse total, transformam-se em resíduos 350 milhões de toneladas, ou 76% do que foi produzido. O volume total da produção encheria 460 estádios do Maracanã. O lixo corresponderia a 350 estádios lotados de plástico descartado.
Estima-se também que 22% dos resíduos plásticos - cerca de 77 milhões de toneladas por ano - não entram no sistema correto de coleta e processamento de lixo, indo parar em lixões irregulares, lagos, córregos e no oceano. Em 2019, segundo a OECD, cerca de 6,1 milhões de toneladas de resíduos plásticos foram lançadas em ambientes aquáticos, dos quais quase 2 milhões de toneladas fluíram para o oceano.
Outro estudo estimou que, além desse tipo de poluição, cerca de 3 milhões de toneladas de micropartículas plásticas são liberadas no meio ambiente todos os anos, mas esse número pode estar significativamente subestimado. Um artigo na revista PLOS ONE indicou que a superfície do oceano abrigaria entre 82 e 352 trilhões de partículas de plástico.
Além do ambiente marinho, identificaram-se microplásticos na atmosfera, nos solos, em recursos hídricos e na fauna por todo o planeta. O problema da poluição por plástico atingiu uma dimensão global e crescente. Ainda não se compreende bem as consequências para a história de nosso planeta.
Um sopão tóxico
Uma revisão da literatura científica sobre o tema mostrou que micro e nanoplásticos podem causar estresse oxidativo, respostas inflamatórias, disfunção metabólica, alterações da microbiota intestinal, disfunções reprodutivas, danos ao DNA e alterações neurocomportamentais. Muitos desses efeitos dependem de características das partículas (tamanho, forma, carga, composição e contaminantes adsorvidos) e da dose ou grau de exposição.Até agora, os estudos têm se concentrado mais nos organismos aquáticos. Observou-se que a poluição por plástico causa um conjunto de impactos negativos: declínio no comportamento alimentar, na fertilidade, retardamento do crescimento e desenvolvimento larval, e aumento do consumo de oxigênio.
Em peixes, os efeitos nocivos dependem do tamanho, da dose e da duração da exposição às partículas de plástico. Foram observados danos estruturais ao intestino, fígado, guelras e cérebro, além de distúrbios metabólicos, alterações comportamentais e redução da fertilidade.
Nas aves, as evidências apontam para impactos como estrangulamento ou emaranhamento, privação nutricional e danos ao intestino. Uma vez no trato digestivo, os microplásticos podem provocar sangramento, obstrução, úlceras ou perfurações, levando à redução da ingestão alimentar ou morte. Além disso, podem estimular respostas inflamatórias, afetar a ovulação e aumentar a mortalidade.
O plástico muitas vezes contém aditivos tóxicos, ou absorve contaminantes do ambiente, tornando-se tóxico. A ingestão de microplásticos por aves foi associada a alterações na microbiota intestinal, favorecendo o crescimento de patógenos, micróbios resistentes a antibióticos e microrganismos degradadores de plástico.
Outros grupos animais, em distintos ecossistemas, também são afetados. Há relatos de estrangulamento ou emaranhamento em pedaços de plástico, de bloqueio intestinal por ingestão de partículas e transporte de micropartículas pelo sistema circulatório para outros tecidos. Estas geram comprometimento físico e das variações histológicas do sistema intestinal, distúrbios do metabolismo, do crescimento, lesões no DNA, perturbações endócrinas, disfunções de neurotransmissão, genotoxicidade, entre outros.
Os os nanoplásticos - partículas com menos de 100 nm de diâmetro - podem penetrar e se acumular em tecidos e órgãos, interagindo com proteínas, lipídios e carboidratos, e afetando processos celulares. Em animais terrestres e aquáticos, eles foram associados a disfunções reprodutivas e comportamentais.
Infelizmente, estudos com mamíferos terrestres ainda est\ao em estágio inicial. A maioria usa camundongos ou ratos de laboratório. Esses estudos mostraram danos bioquímicos e estruturais, com disfunções no intestino, no fígado e nos sistemas excretor e reprodutivo.
Décadas, séculos, milênios e milhões de anos
Sintetizado no início do século XX, o plástico só passou a integrar a produção industrial em larga escala a partir da década de 1950. Desde então, o seu descarte incorreto poluiu o planeta em escala global e massiva.
Em pouco mais de meio século, a poluição plástica se espalhou por todos os ambientes terrestres e aquáticos. O modo como esse plástico se decompõe - fragmentando-se em partículas cada vez menores - já mostra efeitos negativos claros.
Nem completamos um século e o plástico, na sua difusão, transformou-se numa das maiores ameaças às formas de vida na Terra. A ameaça ainda está sendo explorada e compreendida em todos os seus desdobramentos e consequências.
Somente no ano de 2019, estima-se que se produziram cerca de 9,5 bilhões de toneladas de plástico. Com base em dados atuais, isso corresponderia a quase 2 bilhões de toneladas descartadas indevidamente no ambiente - toneladas que entraram num processo lento de fragmentação, gerando partículas cada vez menores.
Bastou meio século para gerar um problema de proporções geológicas. Ainda estamos aprendendo sobre o tema, e pode demorar décadas até termos um panorama abrangente, de todas as influências presentes e futuras da poluição plástica na história da Terra.
Enquanto isso, o plástico acumulado permanecerá no ambiente, fragmentando-se por milênios ou até milhões de anos, gerando trilhões de micro e nanopartículas incessantemente.
Agitador Cultural
