Entre dois polos
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839. Seus pais eram trabalhadores livres, agregados da rica viúva Maria José de Mendonça Barroso. O pai, Francisco José de Assis, descendente de escravos alforriados, era pintor e dourador; a mãe, Maria Leopoldina Machado, era portuguesa da Ilha de São Miguel, nos Açores. Do pai, Machado herdaria a pele mulata.
O local de nascimento foi a Quinta do Livramento, uma grande chácara que ocupava todo o entorno do Morro do Livramento até a Praia do Valongo, no Rio de Janeiro, à época capital do Império. Propriedade de enormes proporções, possuía a casa principal, onde morava a família proprietária, uma capela e residências que abrigavam agregados - como os pais de Machado - e escravos.
A sociedade brasileira criou-se inserida no processo de formação do capitalismo moderno dos centros europeus. A exploração do trabalho compulsório nas colônias da América compunha elemento essencial ao acúmulo comercial de capital, etapa constitutiva da edificação do capitalismo industrial do outro lado do Atlântico. A contrapartida ao desenvolvimento das foças produtivas da Europa - e, com isso, dos inúmeros avanços sociais, a começar pelo Iluminismo - era a intensificação do trabalho compulsório nas colônias.
Orientado para a acumulação externa, a produção econômica de matéria prima na colônia deveria resultar na máxima concentração de renda possível, daí a adoção do sistema escravocrata. Além disso, o tráfico de escravos, controlado pelas metrópoles, abria uma nova frente de acumulação de capital. Essa organização da economia brasileira implicava em constante carência de capitais, uma vez que a riqueza destinava-se à Europa. Somada aos limites do trabalho escravo no desenvolvimento das técnicas produtivas, observava-se um baixo nível tecnológico e um desenvolvimento econômico apenas extensivo.
A sociedade escravagista brasileira formou-se polarizada em dois estratos. No topo, os senhores proprietários de terra e escravos, organizados em famílias patriarcais, como no caso dos Mendonça Barroso. Na base, os escravizados, indivíduos reduzidos a objetos de valor e absolutamente despossuídos. Os senhores assumiam tanto uma feição fidalga, nos moldes de uma aristocracia rural, quanto de empresários, intimamente ligados à produção e à circulação de mercadorias. Havia assim grande mobilidade social na camada dos colonos, em grande medida vinculada à fortuna dos negócios.
Quando do nascimento de Machado de Assis, contudo, dois desenvolvimentos alteravam o país. No exterior, a Europa concluíra a transição para o capitalismo industrial, que demandava a abertura de mercados das colônias e a expansão da base de consumidores. Tais demandas eram incompatíveis com o sistema colonial, pautado pelo domínio comercial exclusivo da metrópole sobre a colônia e o trabalho forçado da escravidão. Pressões da Inglaterra industrializada contribuíram para a abertura dos portos do Brasil, a independência brasileira e, no final do século XIX, o fim da escravidão.
A tendência vinda do exterior aliou-se ao desenvolvimento interno, provocado pela expansão da produção colonial. A urbanização fomentou as profissões do comércio, os meios de transporte e a administração pública. Com isso, cresceu uma camada intermediária, entre os dois polos da sociedade, constituída por pequenos proprietários voltados à subsistência, livres lavradores, profissionais urbanos e os agregados.
Dado que a produção concentrava-se na propriedade rural e de escravos, controlada pelos senhores proprietários, a condição econômica dessa classe intermediária era precária e dependente do estrato superior. Nesse contexto, a principal estratégia de sobrevivência dos membros dessa classe constituía o favor, um tipo tropicalizado de mecenato. A expressão mais extrema dessa condição dava-se na forma dos agregados, pessoas livres que desenvolviam uma relação quase formal de dependência com as família senhoriais, em troca de serviços ou trabalho.
Os pais de Machado de Assis eram agregados dos Mendonça Barroso. Destacavam-se porque sabiam ler e escrever, fato raro para trabalhadores pobres do período. O que representou um princípio fora do comum para o filho, pois ele foi alfabetizado provavelmente pela mãe num país em que a grande maioria da população era iletrada.
Nascido fora de berço
A sociedade brasileira marcava-se pela baixíssima mobilidade entre seus estratos. As possibilidades de realização pessoal ficavam condicionadas ao berço. Os nascido escravos eram escravos, os nascidos em famílias senhorias eram a elite e assim por diante. Tal fixidez da hierarquia social ganharia representação simbólica no imaginário coletivo através de ditados populares, como "a educação vem do berço" ou "nascido em berço de ouro". Machado de Assis, filho de agregados, teria diante de si o difícil desafio de navegar as dificuldades da origem modesta, e talvez galgar alguns degraus na camada intermediária da sociedade urbana carioca.
A arcaica estrutura de poder brasileira, sobre a qual reside o engessamento da sociedade - e de suas potencialidades de dinamismo e desenvolvimento -, adaptou-se aos avanços dos séculos e mantém-se em vigor no presente. A elite nacional ocupou os cargos do Estado, antes vinculados à metrópole, e de escravista exportador, o país transformou-se em capitalista exportador de itens básicos. A mobilidade social continuou baixa. Como mostra o livro "Ciência da Primeira Infância", publicado em 2025, a classe social, a renda, a escolaridade dos pais, a cor da pele e o local de moradia ainda definem precocemente o futuro das crianças no Brasil. Daqueles nascidos nos 20% mais pobres da população, somente 2,5% ascendem ao grupo dos 20% mais ricos.
Além de hierarquicamente pouco flexível, a sociedade escravocrata do tempo de Machado de Assis ficava submetida ao exercício sem contrapesos do poder pela elite. Nesse contexto de dominação, assentada no princípio de que a vontade senhorial era inviolável, o afeto caminhava junto aos abusos e à violência como formas legítimas de gestão das outras classes. Um exemplo disso encontra-se no poema Dona Chica, de Raul Bopp, em que a protagonista de mesmo nome quebra com martelo os dentes de uma escrava, por haver importunamente causado boa impressão numa visita.
Outro exemplo vem de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", principal obra de Machado de Assis (talvez o maior romance do século XIX). Em certo episódio, o protagonista, homem branco de uma família senhorial, depara-se com um ex-escravo da família vergalhando um escravo em praça pública. Se na aparência a cena era torva, após detalhada consideração o personagem considerou-a fina e profunda.
Durante a infância, quando ainda uma criança não alforriada, o ex-escravo servira-lhe para as brincadeiras mais brutais: nele montava, punha um freio na boca, desancava-o. Quando encontra-o na praça, livre, adulto e dono de um escravo, admira-se, com um tom de empatia, que ele tenha incorporado com maior veemência a postura brutal de um senhor, comprando um escravo para si e o castigando com severidade.
O maior degenerado
Acompanhando as mudanças externas e internas, o Rio de Janeiro do século XIX também encontrava-se em transformação. A corte era o mais importante entreposto comercial do centro-sul do país, para o qual deslocavam-se pessoas e mercadorias. Em função da concentração de burocratas, militares, comerciantes, entre outros, constituía também centro de consumo.
Havia o esforço de implementar os ideais de modernidade, provenientes dos centros industriais europeus, na realidade da sociedade escravagista brasileira. Se a elite local almejava os princípios liberais gestados na Europa, considerada o pináculo da civilização, as formas econômicas que empregavam para produzir sua riqueza contra eles se chocavam.
Mudanças eram muito bem-vindas na capital do Império. O Rio de Janeiro tinha graves problemas de salubridade, devido às precárias condições sanitárias. A população expunha-se a frequentes epidemias de doenças como febre amarela, tifo, varíola, peste bubônica e cólera. Desde o século anterior, médicos propunham intervenções para lidar com os problemas da cidade.
Mas um plano estruturado de urbanização surgiria apenas no fim da década de 1870, quando a economia da cidade passou a contar com a pujante lavoura cafeeira, primeiro cultivada na corte e depois expandida para o Vale do Paraíba. Essa busca de modernização em moldes europeus acompanhou-se da importação da teoria racial e sua adaptação ao contexto brasileiro.
Consolidou-se no século XVIII a visão europeia que dividia a humanidade em povos civilizados e povos selvagens ou primitivos - no sentido de que encontravam-se num estágio de desenvolvimento preliminar, um estado de natureza. Com o aprofundamento da colonização de territórios estrangeiros e dominação de suas populações, intensificando a exploração, promoveu-se entre os pensadores europeus uma perspectiva negativa de ambos. Tanto natureza e clima quanto os povos primitivos representariam o atraso e a degeneração.
A separação entre o 'civilizado' europeu e o restante passou, no início do século XIX, a considerar a ideia de raça. Nesse sentido, os europeus seriam melhores do que os demais não por causa de fatores sociais, mas em função da própria biologia. A teoria racial europeia assumiria novos contornos, especialmente após a publicação de "A origem das espécies", de Charles Darwin, culminando na teoria pseudocientífica da eugenia.
Pobre do menino Machado, mulato e descendente de escravos. Além de pertencer à classe dos agregados, dentro de uma sociedade de pouquíssima mobilidade social, era também um típico representante da mestiçagem pela qual o Brasil ganhava fama mundial. De fato, em 1844, o naturalista alemão Karl Friedrich Philipp von Martius venceu um concurso do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro sobre a história brasileira.
Em sua tese, von Martius argumentava que a história nacional e seu desenvolvimento submetia-se à influência das três raças. O branco trazia consigo o elemento civilizador. O indígena, uma dignidade original, podendo, sob os auspícios do branco, alcançar um estágio de civilidade. O negro carregava toda a carga negativa, raça vista como degenerada e portanto empecilho ao progresso.
Raça no país tropical
Desde a independência, o país buscava firmar-se entre o conjunto das nações ocidentais, guiado por princípios da burguesia liberal europeia. Ainda que dependesse de uma base agropecuária escravagista de caráter colonial, voltada ao mercado externo, em vez de uma base industrial, o Brasil posicionava-se como novo mundo, com potencial de ombrear as nações do velho continente.
A teoria das raças fazia esse ideal de modernização do país inviável. A teoria operava como um artefato ideológico, convertendo um aspecto de origem social, a brutal dominação de povos e territórios pelos países europeus, em fato natural, de caráter biológico. A dominação seria inevitável, por culpa dos próprios povos primitivos, pertencentes a uma raça incapaz de gerar civilidade, algo exclusivo aos brancos.
Caracterizado pelas três raças, o Brasil jamais lograria uma posição entre as nações avançadas devido à sua mestiçagem. A importação dessa tese pelas elites nacionais era contraditória, pois correspondia a uma confissão de seu próprio atraso, pois pertencentes a um país mestiço que nunca alcançaria o mesmo grau de civilização europeu. Em meio a essa conjuntura, ocorreu um fenômeno de antropofagismo da teoria das raças, antecipando a postura defendida pelos modernistas (também eles defensores da teoria de raças e, em diferentes graus, da eugenia) na segunda metade do século seguinte.
No direito, predominou a orientação liberal, pautada pela construção de um aparato legal, abrangendo leis, instituições, procedimentos jurídicos. Essa edificação do sistema jurídico nacional espelhava-se nos princípios da 'civilizada' Europa. A teoria racial, nesse ambiente, funcionava para flexibilizar o aparato legal e sua aplicação, ao introduzir níveis distintos de cidadania entre a população. Ela esvaziava a condição de cidadãos daqueles a quem atribuía-se a raça negra, que, por conseguinte, ficavam de fora de políticas públicas ou da ação do Estado.
Após a abolição da escravatura, a teoria racial conquistaria a opinião pública letrada, disseminando-se em discursos e conversas do cotidiano. Assumia nesse campo o papel de legitimadora da hierarquização social, uma vez que a institucionalidade da escravidão havia sido suspensa. Se o controle da elite sobre a política, a economia e o Estado, respondia pela preservação de privilégios e pela continuidade da exclusão daqueles que deixaram a condição de escravos, ainda submetidos à vulnerabilidade social, a popularização da teoria racial apagava os rastros dos fatores políticos e sociais desse atraso.
A defesa da teoria em sua vertente mais fiel ao original teve campo fértil na medicina. Foi justamente nessa área que, na Europa, a teoria incorporou as vestes de um suposto cientificismo. Os médicos brasileiros apontaram os males que a degeneração da raça branca pelas outras raças provocava no país. As soluções propostas incluíam controle reprodutivo ou políticas de branqueamento da população. Argumentos que contribuíram para a política, no centro-sul do país, de imigração de mão de obra europeia.
Encampada pelos médicos brasileiros, a influência da eugenia se estenderia até a primeira metade do século XX. O poeta Jorge de Lima, por exemplo, formado em medicina, ecoaria essa tese durante o modernismo - como tantos outros autores. A eugenia perderia espaço com a obra de Gilberto Freire, que propôs uma solução positiva para a questão das três raças, valorizando uma suposta miscigenação tupiniquim como elemento formador da identidade brasileira. E também devido aos desdobramentos da Segunda Grande Guerra.
Desgraça pouca é bobagem
O mestiço Machado de Assis contou com a incrível sorte de ser filho de trabalhadores livres, em vez de filho de escravos. Criança, sequer estava ciente dessa e de outras regras que o mundo lhe impunha, enquanto brincava com os demais meninos da Quinta do Livramento. Era franzino; gostava de andar à toa pela Gamboa, ir com os companheiros às praias Formosa, de São Cristóvão e ao Cemitério dos Ingleses. Ou passear pelo bairro da Saúde, entre casas antigas, ladeiras e ruas esguias.
Mas logo se manifestaram transtornos neurológicos que o acompanhariam pelo resto da vida. Na interação com os outros meninos, a fala truncava, e Machado achava-se gago, tornando-se o centro das pilhérias. Também sofria de coisas esquisitas, episódios convulsivos e de perda de consciência, que a crítica contemporânea reconheceu como epilepsia, transtorno que reforçou seu temperamento introvertido.
Se a fortuna o favoreceu com um berço livre, com a alfabetização, a doença nervosa vinha cercada de profundo estigma social. Em linha com a teoria das raças, a medicina da época associava os processos mentais aos comportamentos e características biológicas do indivíduo. Sustentavam-se teses de que certos criminosos sofressem de uma regressão atávica em sua biologia, fazendo-os agir como se estivessem em estágios anteriores e mais primitivos da evolução humana. Sendo hereditárias, essas regressões transmitiam-se através das gerações e levavam à degeneração.
Na segunda metade do século XIX, transtornos mentais como a insanidade e a epilepsia juntaram-se ao comportamento criminoso no rol das regressões degenerativas e hereditárias. Pessoas com epilepsia foram descritas como detentoras de uma degeneração moral, possuindo tendência a comportamentos impulsivos e imprevisíveis durante períodos de turvação da consciência. Além de pobre, mulato, a medicina atribuía a Machado a degeneração da epilepsia. Não por acaso, o autor esconderia sua condição de epiléptico durante toda a vida, referindo-se às crises por meio de eufemismos. Sua discrição era tamanha que a mulher, Carolina Novaes, descobriu que ele sofria de um mal somente após o casamento, quando testemunhou uma "ausência" do marido.
A infância transcorreria, contudo, ainda alheia a todas as restrições e estigmas que os homens brancos inventavam. A introdução de Machado à perda viria pelas mãos da morte, levando a irmã mais jovem em 1845, vítima de sarampo, e a mãe, vítima da tuberculose, em 1849. O pai viúvo casou-se, cinco anos depois, quando Machado de Assis contava 15 anos. Ele completou o aprendizado inicial numa escola pública, onde despertou seu gosto pelo estudo e pelos livros.
A família mudou-se para um sobrado em São Cristóvão. Nessa época, o adolescente travou relações com o forneiro francês da padaria próxima de onde morava, que concordou em dar-lhe aulas da língua de Vitor Hugo. Depois, frequentou a residência da dona da padaria, também francesa, onde aprimorou a pronúncia em conversações. O Rio de Janeiro encaminhava-se para o período conhecido como a "Bela Época" carioca, em que atravessaria grandes intervenções urbanas e culturais, sendo francesa a principal influência externa. A fluência na língua viria bem a calhar ao menino Machado.
Diz-me com quem andas
Magro e discreto adolescente, Machado de Assis tomava de manhã o bonde entre São Cristóvão e o Cais dos Franceses. Permanecia o trajeto entretido com a leitura de um livro. Cumpria uma função, talvez de sacristão ou coroinha, na Igreja da Lampadosa, pela qual recebia uma modesta remuneração. Cumprida suas obrigações, visitava espaços da cidade e entregava-se aos livros na sala de leitura pública do Gabinete Português. Em seguida, dirigia-se ao Largo do Rocio, onde ficava a Livraria Paula Brito, centro literário da capital.
Pioneiro editor brasileiro, Francisco de Paula Brito possuía tipografia própria e livraria. Assim como Machado de Assis, era mulato, de origem modesta, havendo conquistado uma posição de prestígio no círculo literário nacional. Editava o jornal de variedades e folhetim de moda "A marmota", além publicar dezenas de escritores brasileiros. Paula Brito acolheu o adolescente Machado de Assis, que tornou-se um colaborador do jornal e envolveu-se com outros literatos. Inaugurava-se uma série de afortunados relacionamentos pessoais, pelos quais o adolescente Machado trilharia um percurso inesperado frente aos preconceitos da época.
Em 1856, pouco depois de sua aproximação com Paula Brito, aos 17 anos Machado obteve emprego de auxiliar de tipógrafo na Tipografia Nacional, cujo administrador era o jornalista Manuel Antônio de Almeida. Nascido em 1830 ou 1831, filho de um tenente falecido quando tinha 11 anos, Manuel constituía outro membro da camada intermediária da sociedade carioca.
Para contribuir com o sustento da família, Manuel começou a trabalhar na adolescência. Ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1849, quando envolveu-se com o jornalismo, primeiro a partir de contribuições esporádicas, depois empregando-se no jornal "Correio Mercantil". Formou-se em 1855 e não exerceria a profissão, pois encaminhava a carreira na imprensa e em cargos públicos. Com pendor literário, Manuel havia escrito em folhetins o romance de costumes "Memórias de um sargento de milícias", publicado em livro em 1854.
De caráter picaresco e satírico, o romance de Manuel Antônio de Machado inovava, dentro do panorama da literatura brasileira, pelas tintas mais realistas. Tratava do ambiente urbano do Rio de Janeiro, propondo um retrato dos trabalhadores livres, a classe em situação de precariedade entre os extremos de senhores e escravos. De conteúdo crítico e repleto de comicidade, o romance narra os acontecimentos rotineiros dessas pessoas comuns, de vida no limite entre o improviso e a desocupação, em que aparecem distintas táticas de sobrevivência, como a malandragem, o conluio e, principalmente, o compadrio.
Aprendeu as regras desse jogo e as colocou em prática o jovem Machado de Assis. Por meio da amizade com Manuel Antônio de Almeida e Paula Brito, expandiu suas relações pessoais junto a políticos, poetas, dramaturgos, artistas e outras pessoas envolvidas com a imprensa e a literatura. Ele deixou a Tipografia Nacional em 1858, assumindo a função de revisor de provas na casa editorial de Paula Brito. Nessa época, teceu amizade com Quintino Bocaiúva, cuja história pessoal tinha um ponto em comum com a de Machado e Manuel Antônio de Almeida.
Nascido em 1836, filho de um brasileiro e uma argentina, Quintino perdeu o pai quando contava 13 anos de idade. Criado com a ajuda de um tio em São Paulo, começou a trabalhar no final da adolescência como tipógrafo e revisor, sem conseguir cursar a faculdade de direito por falta de recursos. Em 1860, fora contratado como redator principal para o relançamento de "O Diário do Rio de Janeiro". Bocaiúva convidou o jovem Machado de Assis a integrar a redação do jornal.
Ele estreou como jornalista e cronista no jornal, onde permaneceria por seis anos, até 1867. Durante um período de suspensão de crises epilépticas, em textos afiados e de oposição, mas especialmente como cronista e crítico literário e de teatro, gradualmente construiu uma reputação no meio letrado do Rio de Janeiro. O teatro era a principal atividade artística de entretenimento da "Bela Época" carioca, e coube a Machado o exercício pioneiro da crítica nesse momento de efervescência cultural.
No mesmo período, passou a contribuir com outros periódicos cariocas, e iniciou a carreira na literatura, escrevendo poesia, peças de teatro e contos, além de traduções. As relações estabelecidas na classe intermediária da sociedade brasileira, na qual misturavam-se pessoas com acesso ao poder e outras que compartilhavam dificuldades semelhantes às de Machado de Assis, abriu-lhe oportunidades no tecido urbano da capital federal. Aproveitou-as bem, valendo-se da formação autodidata da juventude, quando aprendeu francês e leu autores estrangeiros. Ficou amigo de José de Alencar, considerado o maior escritor do país. Por um decreto imperial de 1868, tornou-se cavaleiro da Ordem da Rosa.
Ele havia abandonado a redação do "Diário do Rio de Janeiro" no ano anterior. Com os liberais no gabinete do Império, grupo político que apoiava, Machado de Assis conseguiu uma nomeação para o cargo de ajudante do Diretor de Publicação do Diário Oficial, que ocuparia até 1874. Conheceu sua futura esposa, Carolina Novaes, natural da cidade do Porto, em Portugal, através da convivência com um grupo de escritores portugueses. Deu-se o casamento à revelia da família, contrária à união de Carolina com o jornalista mulato. A união gestaria o formidável escritor.
Sorte no amor
A elegante pobreza caracterizaria os primeiros anos de casamento. Entre 1970 e 1973, Machado de Assis publicou quatro livros com a Editora Garnier, obtendo uma pequena remuneração que auxiliou nas despesas de casa. Carolina Novaes, madura, culta e inteligente, preencheu as lacunas da formação autodidata do marido. Teria sido ela quem o conduziu a autores ingleses e outros clássicos. Participava ativamente do processo de escrita, corrigindo e editando manuscritos, discutindo a obra em andamento. Com a mulher, aprimorou-se o estilo e o domínio da língua de Machado de Assis.
Em 1973, quando da reforma da Secretaria de Agricultura, Machado foi nomeado primeiro oficial, posição de maior estabilidade e vencimentos. O novo emprego, as regulares contribuições em periódicos, permitiram-lhe a estabilidade numa posição social privilegiada na classe intermediária da sociedade carioca. A partir daí, firmou-se a carreira literária, com a publicação dos romances de sua primeira fase, em que aparecem, com exceção do primeiro, personagens femininas de origem pobre, talentosas e ambiciosas, que buscam ascender socialmente. Em todos, aborda-se o casamento e as relações amorosas: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878).
A experiência da escrita funcionou igualmente como um aprendizado, e o escritor amadureceu, culminando nos romances da segunda fase, mais complexos, densos de recursos e ironia, retratando via de regra personagens masculinos de famílias senhoriais brasileiras. Essa fase inicia-se com o monumental Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), seguido por Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1889) - estes três considerados seus livros mais importantes -, Esaú e Jacó (1904), Relíquias da Casa Velha (1906) e Memorial de Aires (1908). A publicação dos livros da segunda fase consagraram-lhe como mestre das belas letras, granjeando, na época, o reconhecimento em função da sobriedade da forma, da correção da linguagem, de seu estilo literário.
Passou despercebida a presença também da ironia, nem sempre ostensiva, e da crítica que Machado de Assis utilizou para expor os representantes mais privilegiados da sociedade brasileira gestada pela escravidão. Os críticos da época sustentavam que a literatura de Machado não incluía referências históricas, políticas ou sociais, estando focada na delineação psicológica dos personagens ou no drama humano. Dom Casmurro, por exemplo, foi considerado um fino estudo de mulher, no qual o protagonista, Bentinho, inteligente mas simples, descobre-se traído por Capitu, esposa dissimulada e calculista.
Somente na segunda metade do século XX, críticos estrangeiros e nacionais identificaram na obra de Machado de Assis uma camada adicional, da análise profunda e relevante sobre a sociedade brasileira. Nela tinha expressão o Brasil ainda das relações sociais da escravatura, que se buscava obscurecer através da adoção das ideias avançadas e liberais do estrangeiro. Ideias que se ostentavam como ornamentos de distinção erudita, sem abandonar-se de fato o conservadorismo herdado dos séculos coloniais. Uma melhor compreensão de Machado de Assis exigiu, portanto, a evolução da autocrítica da sociedade brasileira e de sua história recente.
Entre seus pares, ele viveu na condição de principal escritor brasileiro, participando da fundação da Academia Brasileira de Letras e sendo eleito seu primeiro presidente. Após a morte da esposa, em 1904, abateu-o a depressão, e como o personagem casmurro, retirou-se gradualmente do convívio social. Faleceu em casa, em 1908, aos 69 anos de idade, em sua certidão constando a cor da pele como branca.
A elite brasileira exaltava em discursos e leis os valores liberais, sem, na prática, obedecê-los em nome da manutenção de seus privilégios econômicos. Ao mesmo tempo brandia, com olhos de ressaca, teses raciais que dissimulavam o atraso que esses mesmos privilégios provocavam ao país. A trajetória de Machado de Assis mostrou que trabalhadores livres a ela submetidos, pertencentes ao campo da imprensa e das artes, possuíam uma certa margem de negociação, em que não precisavam subscreverem-se sempre às teses propagadas pelo estrato superior, em suas inter-relações prevalecendo o compadrio.
É dessa classe intermediária e diversa, de pai mulato, da mãe de açores, da madrinha proprietária de terras, do padeiro francês, do editor descendente de escravos, do jornalista branco e do outro filho de argentina, da esposa do Porto, entre tantos outros, e exprimido entre dois extremos, do excessivo privilégio e da excessiva exclusão, que começou a a criar-se uma identidade brasileira.
Por Ana Clara Melo
Crítica Literária
