Qual o Melhor Horário para Escrever?

Ilustração tipográfica em estilo de gravura, em papel branco, mostrando quatro quadrantes com o sol nascendo, ao meio-dia, se pondo e a lua. De cada astro caem letras maiúsculas e minúsculas como pétalas em direção a uma mulher no centro, concentrada e atarefada, escrevendo à mesa cercada por livros.
Qual é o melhor horário do dia para escrever? Isso interfere na qualidade da escrita ou no sucesso em criar histórias? É possível que sim, mas não existe regra.

Para a maioria das pessoas, escrever é um ato marginal, a ser realizado entre os muitos compromissos do dia. Encontrar uma hora para sentar e encher páginas - ou telas - de palavras possui, portanto, grande importância.

A variedade de rotinas adotadas por escritores ao longo da história demonstra que o horário mais produtivo é fortemente individual. Levantamentos biográficos e estudos sobre processos criativos mostram que alguns autores são extremamente rígidos em seus horários. Outros trabalham de forma fragmentada ao longo do dia.

A disciplina aparece, contudo, como elemento comum. Mais do que a hora exata, o hábito regular de escrever - e que não precisa ser diariamente - funciona como gatilho para a criação literária.

Pode-se dizer que as manhãs são populares entre muitos escritores. As pessoas matutinas sentem-se mais frescas e alertas. João Ubaldo Ribeiro, Paulo Coelho e Clarice Lispector deram testemunho de serem, em diferentes momentos, escritores da manhã. Há também inúmeros relatos de autores estrangeiros que privilegiavam o nascer do dia, como Ernest Hemingway, que começava a escrever antes do sol despontar.

O exemplo de Clarice mostra que as manhãs proporcionam outra vantagem: um ambiente ainda imerso em calma e silêncio. Ela aproveitava o horário matutino, quando os filhos estavam dormindo, para escrever. O sossego do início do dia abre espaço não só para a concentração, mas para a sensibilidade necessária ao trabalho literário.

Muitas pessoas, no entanto, demoram a engajar-se com o dia. De manhã estão sonolentas e não conseguem se concentrar. Precisam de um tempo maior para sintonizar-se com o ritmo cotidiano. Alguns aguardam o almoço para que a mente atinja o auge de disposição e concentração.

Estudos sobre cronotipos - perfis biológicos que indicam se somos mais ativos pela manhã ou pela noite - sugerem que cada pessoa possui um relógio interno particular, influenciando o desempenho cognitivo. Assim, para aqueles cujo pico de energia ocorre mais tarde, escrever logo pela manhã pode ser improdutivo.

Outros, logo cedo, enfrentam compromissos de trabalho, estudo ou família. Escritores desse grupo - entre os quais se incluem nomes como Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles ou Carlos Drummond de Andrade - elegem as tardes como momento preferido para a escrita. Nesse período, muitos já concluíram as tarefas principais da rotina e podem se dedicar à escrita com maior leveza. Há relatos semelhantes em autores como Virginia Woolf, que organizava suas manhãs para assuntos domésticos e reservava as tardes ao seu processo criativo.

As tardes, porém, podem ter menos flexibilidade para acomodar a escrita entre outros afazeres. À medida que o dia avança, surgem tarefas domésticas e familiares, compromissos sociais e demandas profissionais.

Nesse caso, apela-se ao período noturno, talvez o mais desafiador. Depois de um dia inteiro de atribulações, o cansaço pode minar a energia do corpo e a imaginação - ferramenta indispensável ao ato da escrita.  Ainda assim, há quem floresça à noite. Pesquisas sobre criatividade apontam que, para algumas pessoas, a leve fadiga da noite pode até favorecer um pensamento mais livre, associativo e menos rígido - útil para ideias novas ou inesperadas.

Assim como as manhãs, o período noturno traz maior tranquilidade e menos interrupções. Clarice Lispector também utilizava esse horário em determinadas fases, e muitos autores, como Graciliano Ramos, dedicavam-se à literatura ao fim das responsabilidades do dia.

Seguiam uma rotina metódica, contudo, seja inviável frente as obrigações do cotidiano. Nesse caso, importa ter tempo livre, seja qual for a hora do dia. Machado de Assis, por exemplo, sobretudo em sua juventude, ocupado por demandas do ofício e por tarefas administrativas, escrevia em intervalos do trabalho. Manuel Bandeira superou a tuberculose, permanecendo com sequelas de saúde. Escreveu muitos de seus poemas nos momentos em que o corpo lhe permitia, sem horários rígidos.

Trabalhando em escritórios comerciais, Fernando Pessoa escrevia ao longo do expediente, quando encontrava uma brecha, produzindo em pequenos intervalos. Mário de Andrade, envolvido em múltiplas atividades artísticas, docentes e administrativas, distribuía sua escrita ao longo do dia. Esse tipo de escrita fragmentada demanda uma capacidade de concentração momentânea.

Assim, para muitos, a regularidade se constrói no entretempo - nos minutos roubados ao trabalho, durante os deslocamentos, numa pausa para o café. Eis um dos maiores desafios: conseguir adequar a prática da escrita ao restante dos compromissos que, com raríssimas exceções, terão prioridade sobre a literatura.

Que não falte disciplina para perseverar - de manhã, à tarde, à noite, ou no tempo que for.




Por CF Scuo
Escritor