Por volta dos nove anos, mudou-se para a casa dos avós, em Belo Horizonte. Após passagem pelo internato do Colégio Santo Antônio, em São João del-Rei, retornou à capital mineira e cursou o ensino secundário no Colégio Arnaldo. Gostava de passar os domingos lendo na biblioteca pública.
Em 1925, Rosa ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, formando-se em dezembro de 1929. Durante a faculdade escreveu contos para os concursos literários da revista carioca O Cruzeiro, cuja premiação era de cem mil réis. Nas quatro ocasiões em que participou foi premiado. Mas, segundo o próprio autor, “escrevia friamente, sem paixão, preso a moldes alheios”.
Sua trajetória encontraria raízes quando, em 1931 - depois da formatura e do casamento - transferiu-se para Itaguara, na época distrito do município mineiro de Itaúna. Exerceu o ofício numa região carente de médicos, visitando os pacientes a cavalo. Exposto à cultura local, passou a realizar anotações sobre pessoas e lugares, sobre costumes, modos de falar e histórias. Bebendo com sensibilidade dessas fontes, sua literatura ganhou enorme potência.
A saúde de seus pacientes preocupava-o muito, a ponto de deixá-lo emocionalmente abalado nos casos mais graves. Isso e a falta de recursos convenceram-no a mudar de atividade. Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, voltou a Belo Horizonte para servir como médico voluntário no Setor de Túnel da Força Pública.
No ano seguinte, após prestar concurso, exerceu o cargo de oficial médico no 9.º Batalhão de Infantaria, em Barbacena. Por sugestão de um amigo da cidade, prestou concurso para o Itamaraty. Aprovado, foi nomeado cônsul de terceira classe e mudou-se com a família para o Rio de Janeiro. Era a profissão que mais condizia com sua personalidade, e permaneceu no serviço diplomático até sua morte, em 1967.
Sagarana e o regionalismo
A partir das anotações colhidas em Itaguara, João Guimarães Rosa escreveu seu primeiro livro - a coletânea de contos Sagarana -, publicada em 1946. A recepção inicial oscilou entre admiração e perplexidade, em função da qualidade narrativa e da linguagem. Ali estavam histórias do sertão mineiro, mas redigidas num português incomum, que mesclava oralidade, erudição e invenção léxica.A presença marcante do sertão conduziu rapidamente à classificação do livro como regionalista. Esse enquadramento, porém, não era neutro. O termo “regionalismo” estava associado a uma literatura provinciana, limitada, presa a costumes locais e distante de padrões considerados universais ou cosmopolitas.
Considerar o livro como literatura regionalista corresponderia a subestimá-lo como documento de costumes ou expressão folclórica. O sertão funcionaria então como rótulo negativo, e não como elemento de qualidade estética. Sagarana afirmava-se, no entanto, como um regionalismo que nada tinha de provinciano. Era um livro que desafiava os critérios de universalidade, pois nele despontava - fruto da escrita de Guimarães Rosa - uma literatura de forte caráter brasileiro.
Origem do regionalismo
O termo regionalismo foi cunhado na segunda metade do século XIX para identificar a literatura produzida nas províncias, fora do Rio de Janeiro. A partir do Romantismo e da independência do país ganhou força o movimento em defesa, nas palavras de Franklin Távora, autor de O Cabeleira (1876), de “uma literatura propriamente brasileira, filha da terra”.
A fonte dessa brasilidade estaria nas manifestações populares espalhadas pelo interior do país, em geral marginalizadas e sem voz. Enveredava-se por esse caminho interiorano em busca de uma matriz literária mais autêntica, menos exposta aos influxos externos e urbanos. Procurava-se uma literatura livre da imitação estrangeira, que contribuísse para a formação da identidade nacional.
Somente em meados do século XX, contudo, o regionalismo ganharia projeção relevante. Crítico pioneiro no emprego do termo, por volta de 1914 José Veríssimo sugeriu que a literatura nacional debruçava-se sobre as coisas regionais, motivada por sentimento nacionalista, embora a considerasse uma realização imperfeita.
Para Veríssimo, os escritores falhavam em representar o universo sertanejo. Restritos aos aspectos materiais ou à descrição do ambiente, mantinham-se reféns da idealização romântica. Abordavam o regional sob o viés de uma ficção contaminada pela “má influência da mentalidade e dos sentimentos europeus”. A cor e o caráter local não passavam, muitas vezes, de verniz.
Unidade e diferença
Se o termo regionalismo surgiu no século XIX, consolidou-se bem mais tarde, acompanhando transformações políticas e sociais. A nação que herdava séculos de colonização caracterizava-se pela descentralização, com diversos centros de poder espalhados pelo território.
Após a independência, um dos primeiros desafios do Império foi construir uma unidade federal. O período da Regência destacou-se, portanto, pelo processo de centralização da liderança política. A capital imperial dominava as províncias e impunha-se como centro econômico e cultural. Nesse contexto, a noção de identidade brasileira voltava-se a atributos capazes de unir a diversidade regional.
A Proclamação da República e a emergência de São Paulo como centro econômico, em razão do café, desmontaram parcialmente essa estrutura centralizadora. As províncias converteram-se em estados da federação, retomando protagonismo político com relativa autonomia em relação ao poder central.
No relacionamento entre si e com a capital federal, as oligarquias locais projetaram-se simbolicamente, ressaltando particularidades e diferenças. A partir da década de 1920, no fim da Primeira República, ganhou força a noção de regionalismo na literatura como forma de valorização de manifestações artístico culturais ligadas às singularidades dos estados.
Estrangeiros e brasileiros
Conforme o diagnóstico precoce de José Veríssimo, a principal limitação da literatura regionalista consistia no choque entre a colonialidade cultural - presente tanto nas elites centrais quanto nas oligarquias locais - e a diversidade sociocultural brasileira.
Os representantes do regionalismo muitas vezes se encontravam numa contradição: procuravam dar voz a identidades locais das quais estavam, por vezes, distantes, porque emulavam modelos europeus. Focavam peculiaridades locais - dos modos de falar às características físicas do lugar -, carecendo, segundo Veríssimo, “da compreensão que vem da íntima afinidade do artista com o seu assunto”.
Avaliando décadas depois o período entre 1880 e 1920, Antônio Cândido também criticou o que denominava de tendência condescendente e exótica no tratamento do regional. O fracasso decorria do eurocentrismo de muitos autores. A literatura praticada no país havia se formado a partir da transposição da literatura europeia para terras brasileiras, carregando consigo os vícios da colonialidade.
O termo regionalismo difundiu-se mais como rótulo do que como conceito rigoroso. Seu sentido dependia de uma comparação com a literatura dos centros urbanos mais prósperos - sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo -, vistos como espaços privilegiados da modernização e da vanguarda. As obras regionalistas caracterizadas por Veríssimo e Cândido foram paulatinamente associadas a uma vertente literária tacanha e de qualidade inferior.
Por conseguinte, regionalismo passou a designar, ao mesmo tempo, valorização do local e baixa qualidade estética. O trabalhoso esforço de muitos escritores que nele se aventuravam acabava condenado ao malogro.
Euclides da Cunha: pioneiro e colonialista
Ironicamente, um dos primeiros livro do século XX, eleito pela crítica como um clássico da literatura brasileira, carregava-se das tintas do regionalismo. Tratava-se de Os Sertões, de Euclides da Cunha, publicado em 1902, antes portanto da consolidação do termo.
De formação militar, Euclides reproduzia os paradigmas científicos da época, importados da Europa, do determinismo científico e da eugenia. Trabalhava como jornalista num veículo da imprensa carioca, quando recebeu o convite para acompanhar uma expedição do exército para desbaratar o povoado de Canudos, no sertão baiano.
Dessa experiência resultou Os Sertões, obra dividida em três partes: a terra, o homem e a luta. A primeira aborda, entre outros, o clima, o relevo, a geologia e a botânica; a segunda descreve as pessoas, as cidades e outros aspectos da região; a terceira narra as expedições que destruíram o povoado.
O sertão surge como ambiente estranho e inóspito ao olhar urbano. No determinismo e eugenismo de Euclides, clima, paisagem e raça concorrem para explicar a menor evolução social atribuída aos sertanejos. O texto recorre a um léxico de pretenso cientificismo, usando termos técnicos, arcaísmos, neologismos e expressões obsoletas ou raras.
O livro foi recebido com admiração pela amplitude do projeto, pelo foco na realidade sertaneja e pela força retórica do texto de Euclides da Cunha. Para um dos principais críticos da época, Sílvio Romero, um dos méritos era revelar “a genuína população nacional, a grande massa rural sertaneja”.
A repercussão da obra relacionava-se também ao contexto político. Diversos grupos sociais e intelectuais estavam descontentes com a Primeira República. O relato de Euclides expunha o crime praticado pelo governo na destruição de Canudos - sem, no entanto, apontar os principais responsáveis. Estima-se que a guerra promoveu o massacre de mais de 20 mil pessoas, incluindo mulheres e crianças. Algumas queimadas vivas, quando o exército atiçou fogo nas casas.
A publicação de Os Sertões, e sua canonização pela crítica, amalgamaram o espaço interiorano com a ideia de identidade brasileira. Constituiu um marco do que viria a ser, mais tarde, denominado de regionalismo, bem como de sua insuperável contradição: a interpretação do país por uma visão mergulhada em pressupostos e preconceitos colonialistas.
Euclides da Cunha distanciava-se de outros autores que, como destacaria José Veríssimo, fracassavam ao se debruçar sobre as coisas regionais. Aplicando um arcabouço intelectual marcado por hierarquias coloniais - por meio de jornalismo de campo, descrição geográfica, análise social e elaboração literária -, Euclides obtém sucesso, afirmando o sertão ora como lugar de barbárie e atraso, ora como cenário mitológico de pureza ligada à natureza.
O afeto como vacina
A partir da década de 1930, o panorama começaria a mudar com a publicação de obras com O Quinze (1930), de Rachel de Queiroz, Menino de Engenho (1932), de José Lins do Rego, ou Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos. Ofereciam, em particular a obra de Graciliano, uma nova representação das coisas locais, despida dos profundos vícios encontrados em Euclides da Cunha. Tratavam da realidade do interior brasileiro com sensibilidade e afinidade.
Erguiam, nesse sentido, um primeiro enfrentamento à colonialidade do meio literário brasileiro. Demonstravam a possibilidade de gerar qualidade estética - que a crítica considerava exclusividade da "cultura civilizada" - a partir de ambientes, personagens e acontecimentos que eram classificados como primitivos e permaneciam em oposição à erudição sediada nos centros urbanos.
Graciliano Ramos era considerado um dos principais romancistas brasileiros. Para conciliar sua estatura literária com a cor e o caráter regional, a crítica operou uma manobra simbólica: dividiram sua obra em duas partes, o plano do tema, incluindo personagens e cenários, e o plano estético, que transformava os elementos da história em questões universais.
Preservava-se, assim, o arcabouço teórico eurocentrado. Narrativas que inevitavelmente tocavam o campo do regionalismo, termo carregado de hierarquias culturais e desconfiança estética, alcançavam a excelência literária porque extrapolavam o regional, superavam-no, transcendiam-no. O traço regional seria reduzido a um detalhe desimportante.
Esse juízo crítico repleto de colonialidade ganharia máxima expressão diante da obra de Guimarães Rosa. Impossível admiti-la simplesmente como regionalista. Por isso Antônio Cândido classificou-a de regionalista sem regionalismo. Extirpava qualquer possibilidade estética ou poética da matéria-prima utilizada pelo autor.
A partir daí, repetiram-se as interpretações de que Rosa não reproduzia a oralidade ou os falares populares, mas os transformava em matéria poética. Ou então que ele enxertava no sertão e em seus personagens, que de outra maneira restariam planos e vazios, questões filosóficas, existenciais e metafísicas.
A crítica e suas interpretações, todavia, vão de encontro ao que revela a leitura atenta da obra de João Guimarães Rosa: mais do que indispensável, o sertão e seus habitantes são a fonte da exuberância literária. Talvez porque o afeto lhe suprimisse a colonialidade, afeto que o impediu de continuar na carreira de médico, pois o fazia sofrer junto com os pacientes, Rosa, em vez de desprezo por uma realidade supostamente primitiva, demonstrava empatia e admiração.
Os estudos das suas anotações e cadernos de campo evidencia o oposto do defendido pela colonialidade da crítica de Cândido e afins. João Guimarães Rosa foi o maior entre todos os regionalistas. Ele realizava expedições em Minas Gerais não para coleta folclórica, mas para beber na riqueza das fontes que encontrava. As palavras, os ditos populares, os nomes próprios, as construções sintáticas, os cantos, as formas de tratamento, as imagens, os sons que registrava eram a matriz de sua linguagem escrita.
O trabalho de Rosa tinha raízes numa base empírica concreta, oral e social, portadora de uma poética e universalidade próprias. E porque a oralidade e a escrita são registros separados, cada qual com particularidades irreconciliáveis, não basta transcrever a primeira na segunda. Coube ao escritor traduzir a linguagem oral para a forma escrita.
É aí que reside a importância de João Guimarães Rosa. Ele realiza uma imersão empática no sertão, reconhecendo a riqueza social e linguística que encontra, cuja estética exuberante lapida, amplifica, traduz em forma escrita. Ao mesclar sua voz com as vozes captadas no interior, permitindo que estas predominassem como força literária, Rosa dá vazão a uma linguagem brasileira inédita.
O que foi, destarte, um feito assaz imenso
Por Ana Clara Melo
Crítica Literária
