Escritor: ser só ou não ser só? - Escritor C F Scuo
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Escritor: ser só ou não ser só?

A escrita é um ato solitário. De tão batida, essa frase se tornou um clichê duro feito concreto. Ela sugere que a escritora ou o escritor, em seu espaço privado - e aqui se imagine uma mesa, uma cadeira e, a depender do romantismo de quem imagina, de uma máquina de datilografar -, criaria sua obra a sós, sem qualquer ligação com o mundo lá fora.

Essa afirmação sofre de um grave problema. Ela é inexata. A começar pela existência de diversos modos de escrever. Sideny Sheldon, autor de vários livros da lista de mais vendidos - quem se lembra dele? -, ditava o texto para sua secretária, num ato de comunhão. Ele consistia no autor; mas era sua secretária quem fixava as palavras no papel.

Dizer que a escrita é um ato solitário não constitui uma descrição acurada. Vamos supor, no entanto, que você caiu vítima desse clichê da solidão, enfiando-se no quarto dos fundos da sua casa - de portas fechadas para escapar da família -, a fim de escrever um romance. Do ponto de vista físico, você poderá estar de fato sozinho.

Mas estará a sós do ponto de vista da escrita?

Constelações e pensamentos


Escrever é uma técnica, lembrava Otto Lara Resende. E uma das formas de aprimorá-la se dá através de seu oposto e ao mesmo tempo complemento, a leitura. Isso se deve porque, no fundo, ninguém escreve a sós, mas no interior de uma constelação literária.

Tal constelação abrange os mais distintos tipos de corpos celestes. Existem as estrela literárias localizadas nos quatro cantos, cuja luz viaja de pequenas a grandes distâncias até chegar até nós. As de nossa galáxia ocupam desde braços remotos pré-cabralinos, alvos de estudos mais apropriados recentemente, até cometas que passeiam em órbitas de mídias sociais.

Inclui de tudo essa constelação. De livros que gostamos de reler, que lemos na infância e adolescência, de que gostamos ou detestamos, passando por artigos de jornal, mensagens de texto, um cartaz em cima da fachada da pastelaria ou aquela conversa entre estranhos pescada durante uma subida de elevador para o dentista.

Um dos pressupostos da escrita é justamente o diálogo com nossa constelação literária. Do saudável e infindável entrevero com ela - que, no processo, nunca para de se modificar -, tem origem os novos corpos celestes da literatura. Quem produz um texto tinge ele com todos os outros com que cruzou na leitura, sejam orais ou escritos.  

Quando adicionamos, então, o objeto central de toda escrita - a linguagem -, fica muito mais difícil insistir na ideia de solidão. Mesmo que você se tranque no interior do banheiro, de luz apagada, seu pensamento mais secreto, mais indevassável ali dentro será partilhado com todos os demais brasileiros.

Não em seu conteúdo, ressalte-se antes de que se levantem suspeitas de uma arapongagem ilegal, muito em voga nos últimos anos. Mas na sua forma, na estrutura e nos significados. Considere, por exemplo, o personagem de mestre Yoda, do filme Guerra nas Estrelas, um alienígena verde, baixote, de orelhas pontiagudas e cabeludo.

Talvez nenhuma dessas características tornaram o personagem tão famoso quanto o seu modo de falar. Mestre Yoda subvertia a ordem gramatical de sujeito e objeto nas frases. Tente reproduzir no pensamento esse jeito torto de se expressar: fácil tarefa será não, pois todos princípio o mesmo seguimos.

Raciocinar, tecer pensamentos, expressar aquilo que nos faz humanos se baseia em um bem coletivo, compartilhado com todas e todos nossos semelhantes, a linguagem, suas normas e convenções. Lá dentro do banheiro escuro, apenas o conteúdo de seu pensamento mais secreto pode ser seu; todo o resto dele também é nosso.

Edição

Mais do que encher de palavras uma página ou tela em branco, a escrita abrange igualmente o processo de edição do texto. Editar também é escrever e, nesse momento, observa-se outra forma de diálogo em que a escritora ou escritor não estará literariamente sozinho.

Rachel de Queiroz contou certa vez o caso de um escritor estreante enfurecido com um crítico que analisara o livro publicado. A crítica não era de todo desfavorável ao escritor; antes, pendia mais para o elogio do que para a condenação.Se levantava restrições, buscava colocar em discussão o trabalho realizado.

A reação arrogante sugere que o escritor estreante deve ter pulado a etapa imprescindível da edição, justamente aquela na qual, tal qual o crítico, expõe-se o texto produzido ao debate, à discussão.  
Se no primeiro momento da escrita se lançam as sementes, cultiva-se o campo e colhem-se as uvas, é em seu segundo momento, da edição, que a fermentação acontece e se produz o vinho.

O desafio aqui é se distanciar o suficiente do texto para editá-lo com a franqueza necessária. Eis uma conversa da qual autor nenhum pode escapulir, sob o risco de falhar miseravelmente. O autor que escreveu deve ficar no passado, assumindo em seu lugar o autor que questiona.

Se um imaginou que certo trecho do texto correspondia a preciosos objetos de cristal, o outro estará de prontidão para os destruir a golpes de martelo, se necessário for. A edição irá girar em torno do que se manter, do que modificar e do que jogar fora.

Editar a si mesmos pode se transformar em uma atividade penosa, interminável. Há a opção de contar com editores profissionais. Do embate com eles, da contribuição deles, através desse olhar estranho ao seu, um autor logra compreender as vulnerabilidades do texto escrito e, a partir daí, aprimorá-lo.

E o escritor ou a escritora se empenha nesse colossal esforço porque, no fim das contas, não escrevem para si mesmos, mas para os outros. A escrita tem suas raízes em nosso semelhantes e a eles e elas se destina.





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