A Constelação da Escrita: o Mito do Autor Solitário

Imagem tipográfica sobre papel branco de uma pessoa no interior de uma caverna, sendo o céu ocupado por outras pessoas, letras e livros. Simboliza o mito do autor ou autora solitários, e como estão inseridos numa constelação literária com a qual dialogam.
A escrita é um ato solitário. De tão batida, essa frase se tornou um clichê duro feito concreto. Sugere que a escritora ou o escritor, em seu espaço privado - e aqui se imagine uma mesa, uma cadeira e, a depender do romantismo de quem imagina, uma máquina de datilografar -, criaria sua obra a sós, sem qualquer ligação com o mundo lá fora.

Essa afirmação sofre de um grave problema. Ela é inexata. A começar pela existência de diversos modos de escrever. Sidney Sheldon, autor de vários livros da lista de mais vendidos - quem se lembra dele? -, ditava o texto para sua secretária, num ato de comunhão. Ele consistia no autor; mas era sua secretária quem fixava as palavras no papel.

Dizer que a escrita é um ato solitário não constitui uma descrição acurada. Vamos supor, no entanto, que você caiu vítima desse clichê da solidão, enfiando-se no quarto dos fundos da sua casa - de portas fechadas para escapar da família -, a fim de escrever um romance. Do ponto de vista físico, você poderá estar de fato sozinho. Mas estará a sós do ponto de vista da escrita?

Constelações e pensamentos

A crença de que escrever é um ato solitário é um clichê ultrapassado. A visão romântica do autor isolado foi questionada por abordagens socioculturais da escrita. Pesquisas em teorias da escrita ressaltam que o processo criativo não ocorre no vácuo individual, mas em interação contínua com fatores sociais, culturais e históricos.

Em consequência, o texto final incorpora não só a voz do autor, mas uma constelação de vozes sociais e literárias. Todo texto resulta de amplas interações: o escritor está inserido numa sociedade e dialoga implicitamente com outros autores, normas linguísticas, contextos e leitores.

Escrever é uma técnica, lembrava Otto Lara Resende. E uma das formas de aprimorá-la se dá através de seu oposto e ao mesmo tempo complemento: a leitura. Isso se deve ao fato de que, no fundo, ninguém escreve a sós, mas no interior de uma constelação literária. Cada autor circula em uma vasta rede de referências que inclui desde obras clássicas até as leituras cotidianas

Inclui de tudo essa constelação. De livros que gostamos de reler, que lemos na infância e adolescência, de que gostamos ou detestamos, passando por artigos de jornal, mensagens de texto, um cartaz em cima da fachada da pastelaria ou aquela conversa entre estranhos captada durante uma subida de elevador para o dentista.

Um dos pressupostos da escrita é justamente o diálogo com nossa constelação literária. Do saudável e infindável entrevero com ela - processo que não cessa -, tem origem os novos corpos celestes da literatura. Quem produz um texto tinge ele com traços do que já leu e viveu.

Além disso, estudos mostram que o autor ou a autora também está envolvido num embate dialógico com o leitor.  A leitura, assim como a escrita, também constitui um processo criativo. O leitor recria o texto com seu repertório pessoal, enquanto o texto resiste com o repertório do autor ou autora, o que reforça que estes nunca estão realmente sozinhos.

Para além do conteúdo das ideias, a língua em que escrevemos é um patrimônio coletivo. A linguagem não é invenção individual, mas resultado de regras e convenções compartilhadas por uma comunidade. Mesmo que você se tranque no interior do banheiro, de luz apagada, seu pensamento mais secreto será partilhado com todos os demais brasileiros. Não em seu conteúdo, ressalte-se antes que se levantem suspeitas de arapongagem ilegal, mas na sua forma, estrutura e significados.

Considere, por exemplo, o personagem de mestre Yoda, de Guerra nas Estrelas. Talvez nenhuma característica o tenha tornado tão famoso quanto seu modo de falar. Ao subverter a ordem gramatical padrão, sua fala só faz sentido porque conhecemos as regras que ele quebra. Isso comprova que a linguagem, até em seus desvios, é um bem coletivo. Nunca estamos sós: toda fala é dialógica, carregada de vestígios de outras vozes.

Edição

Mais do que encher de palavras uma página ou tela em branco, a escrita abrange igualmente o processo de edição do texto. Editar também é escrever e, nesse momento, observa-se outra forma de diálogo em que a escritora ou escritor não estará literariamente sozinho.

Rachel de Queiroz contou certa vez o caso de um escritor estreante enfurecido com o crítico que analisou seu livro. A crítica não era de todo desfavorável; pendia mais para o elogio do que para a condenação. Ainda assim, a reação arrogante sugere que o autor evitou a etapa essencial da edição - justamente aquela que expõe o texto ao debate, à discussão.

Escrever bem vai além de despejar palavras no papel: envolve voltar ao texto repetidas vezes. Estudos destacam que um texto não surge em apenas uma tentativa; é essencial haver um distanciamento temporal entre versões para que ele evolua e se aprimore.

O desafio é se distanciar o suficiente do texto para editá-lo com franqueza. O autor que escreveu deve ceder lugar ao autor que questiona. Se, no primeiro momento da escrita, lançam-se as sementes, cultiva-se o campo e colhem-se as uvas, é em seu segundo momento, da edição, que a fermentação acontece e se produz o vinho. Se um imaginou certo trecho como cristal precioso, o outro deve estar pronto para destruí-lo a golpes de martelo.

Editar a si mesmo pode ser penoso, interminável. Há a opção de contar com editores profissionais. Do embate com eles, da contribuição deles, através desse olhar externo, o autor pode compreender as vulnerabilidades do texto e o aprimorar.

Em última análise, escreve-se para ser lido por outros. A escrita finca raízes na coletividade humana e se destina sempre a outrem. A linguagem já pertence à comunidade; o conteúdo produzido busca interlocutores. Cada construção literária dialoga com leitores e com a tradição do gênero, mesmo que o leitor ainda não exista.

Escrever não é um gesto isolado, mas uma travessia compartilhada entre vozes, códigos e experiências. A escrita tem suas raízes em nossos semelhantes - e a eles se destina.




Por CF Scuo
Escritor