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Ana Clara MeloEscritores brasileiros

Escritores brasileiros: João Guimarães Rosa

Considera-se João Guimarães Rosa um dos pilares da literatura nacional. Natural de Cordisburgo, Minas Gerais, a 27 de junho de 1908, João se mudou ainda criança para Belo Horizonte por causa dos estudos, cidade onde permaneceu - à exceção de um período na histórica São João Del Rei - da escola primária até se formar em medicina. 

Trabalhou como médico no interior do estado e depois na Força Pública - nome dado à polícia da época. Após aprovação em concurso do Itamaraty, João mudou de carreira, exercendo cargos diplomáticos no exterior.

Em paralelo à profissão, ele escreveu contos, novelas e romances, formando talvez o conjunto mais importante da literatura brasileira.

A estréia de João Guimarães Rosa - o livro de contos 'Sagarana', de 1946 - imediatamente despertou elogios e interesse. Trouxe consigo um problema porque, no discurso da crítica literária nacional, o texto do escritor se classificaria como regionalista.

Regionalismo


A criação do termo regionalismo na literatura teve a contribuição do aspecto histórico e político. Após a proclamação da república, no final do século XIX, formaram-se as unidades federativas do país. Com elas, estabeleceu-se uma nova dinâmica de poder entre a elite da capital federal e as oligarquias de cada unidade.

As elites e oligarquias se associavam a centros urbanos, e sua formação cultural era importada de sistemas intelectuais europeus. No entanto, a fim de encontrar uma manifestação literária que soasse como brasileira, dando afirmação ao país, sendo menos uma cópia européia, haver-se-ia de beber em em fontes e expressões culturais diferentes.

A essa homogeneização da elite europeizada se contrapunham as múltiplas formações e vidas culturais de povos espalhados pelo país - boa parte deles à margem, sem voz nem visibilidade. Serviriam como as fontes de brasilidade.

O termo surgiu e se espalhou, no entanto, somente por volta da segunda década do século XX. Foi quando se concebeu a ideia de uma literatura regionalista: que apresentava personagens, lugares e modos de vida interioranos. O uso do termo geralmente acontecia sem uma definição teórica clara ou definida.

Má literatura


O termo regionalismo foi empregado pela crítica para descrever o processo histórico pelo qual enveredou a literatura. Caracterizava, portanto, a produção literária regional, ferramenta afirmativa adotada pelas elites locais para consolidar a posição de sua respectiva unidade federativa no contexto do país.

E, ao mesmo tempo, a busca de uma expressão mais 'brasileira' - popular, daqueles extratos marginalizados da sociedade brasileira. Ressalte-se que, à época, a maioria da população brasileira vivia na zona rural.

Esse movimento da literatura ficava exposto aos conflitos entre os elites regionais e aquelas do centro político e econômico do país - Rio de Janeiro e, mais tarde, também São Paulo. Mas igualmente ao conflito entre as elites, cuja formação espelhava a Europa, e a diversidade dos povos sob seu jugo.

Tais barreiras minaram a produção literária, com resultados de qualidade variável. O regionalismo ganhou conotações negativas, como manifestação de provincianos regionais e de má literatura. 

Euclides: exemplo do regionalismo


Exemplo do regionalismo e suas políticas se encontra na herança mais problemática da literatura brasileira: o livro 'Os Sertões', de Euclides da Cunha. Publicado em 1902, muito antes do surgimento do termo, 'Os Sertões' foi posteriormente acolhido pela crítica na história da literatura nacional enquanto obra regionalista.

Branco, de um estrato privilegiado da capital federal do Rio de Janeiro, de formação militar que refletia sua posição e época, Euclides tinha uma visão determinista e eugenista - abertamente racista -, importada da Europa.

Trabalhava em um jornal carioca quando o convidaram a acompanhar uma expedição do exército para desbaratar o povoado de Canudos, no sertão baiano. Dessa expedição resultou 'Os Sertões', livro dividido em três partes, tratando da terra, do homem e da luta.

A parte sobre a terra aborda o clima, relevo, geologia, botânica entre outros. A parte sobre o homem descreve as pessoas - o sertanejo, cidades e outros aspectos da região. A última parte trata das expedições do exército para destruir o povoado.

O sertão é retratado como uma descoberta, um ambiente desconhecido dos moradores do centro urbano e capital do país. Inóspito, estranho. No determinismo e eugenismo de Euclides, clima e paisagem influenciavam, junto com a raça, para a menor evolução individual e social das pessoas do lugar.

Euclides empregou um fraseado que almejava ao cientificismo, utilizando uma combinação de termos técnicos, arcaísmos, neologismos, expressões obsoletas ou raras, o que faz da leitura um desafio.

E o tempo mostrou-se inclemente com o livro. Além da interpretação social pela eugenia, um charlatanismo abjeto, há sérios erros na descrição que se pretendia científica.

Mas, sem sombra de dúvida, 'Os Sertões' consistiu em empreendimento literário pioneiro, abrangente, de povos de uma região marginalizada do interior do país.

Canudos existia e contestava a autoridade política da oligarquia e do centro - do qual Euclides era um dos integrantes. Decidiu-se que o povoado deveria deixar de existir. Estima-se que a guerra empreendida pelo governo promoveu o massacre de mais de 20 mil pessoas, incluindo mulheres e crianças. Algumas queimadas vivas quando o exército atiçou fogo nas casas.

Testemunhar essa imensa e perversa barbaridade talvez despertou em Euclides da Cunha a simpatia pelas vítimas. Em seu livro, ele denunciou a expedição como um crime, sem jamais, no entanto, apontar os principais responsáveis.

Depois de Rosa


Compreender a obra de João Guimarães Rosa - a história da literatura brasileira - passa por entender a recepção de sua obra. Mergulhando nas profundezas do sertão brasileiro, as histórias de João remetiam inevitavelmente ao que a crítica classificava como regionalismo.

Um termo que trazia consigo uma bagagem considerável: a questão das disputas de poder, a dominação e segregação de pessoas. Uma qualidade questionável.

O texto de João Guimarães Rosa, porém, introduziu algo de novo. A crítica chamou de estilo inovador, de linguagem poética, de qualidade da prosa, elementos que colocavam em cheque a possibilidade de categorizá-lo como um regionalista.

O que fazer quanto à obra de João Guimarães Rosa, se o regionalismo produzia má literatura?

A saída da crítica foi fazer de Rosa um regionalista sem regionalismo. O espaço, o lugar se reduziriam a cenários de posição secundária na obra, para que o autor explorasse artisticamente questões humanas e universais.

Mesmo os personagens se esvaziaram de seu papel na narrativa: João Guimarães Rosa se aproveitaria do local para gerar uma expressão universal. O estilo do autor transcenderia o lugar e o personagens retratados. Por trás do brasileirismo retratado, e através da varinha de condão do autor, emergia o universalismo.

Como se as pessoas do interior, de vida marginal, presos em sua condição 'menos civilizada', não tivessem a capacidade de uma voz pela qual expressassem reflexões sobre o mundo. Nessa interpretação, percebe-se ecos de Euclides da Cunha e sua visão colonial-eugenista. As pessoas do mundo rural não são plenamente evoluídas, ou melhor, humanas.

E aqui reside a importância de João Guimarães Rosa. Ele realiza uma imersão no mundo rural com empatia, reconhecendo e se deleitando com a diversidade de pessoas e de vozes que encontra pelo caminho. É a empatia que o previne contra a herança do elitismo, do colonialismo, do preconceito, que o permite enveredar pelos sertões e absorver suas expressões culturais.

Não é apesar do local e das pessoas que vem a qualidade da literatura de João Guimarães Rosa. É pela riqueza das pessoas e do mundo social do sertão de Minas Gerais, que João trabalha em sua escrita para lapidar, enaltecer, enfatizar.

Somente por mesclar a própria voz com as vozes que ele captou em sua experiência pelo interior, para que as segundas predominassem como força literária, nasce uma literatura, incluindo uma linguagem, intensamente brasileira.

O que foi um feito imenso.




Por Ana Clara Melo
Crítica Literária

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