Da ideia ao livro - Escritor C F Scuo
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Da ideia ao livro

Como nasce um livro? É pertinente afirmar que todo livro nasce da intenção de escrever um texto. Às vezes, essa intenção já vem desde o princípio calcada na proposição de se fazer livro. E tudo corre sem percalços, o texto fluindo até se converter em uma obra literária. Como diz a expressão popular, numa sentada só.

Interrupções


Outras vezes, o livro nasce primeiro como uma vontade de escrever algumas linhas, cujo destino fica sob a influência do acaso. Talvez o texto pare após alguns parágrafos, esgotando-se a ideia que estava por trás dele.

Fica-se nisso mesmo: um manuscrito interrompido em uma gaveta do quarto que, sabe-se lá um dia, se transforme em qualquer outra coisa. Ou termine na cesta de lixo.

Há situações, no entanto, em que se avançou em uma quantidade razoável de páginas. Aquela ideia simples floresceu. Parece, então, que um livro está para nascer. Porém toca o telefone, ou reclamam de uma ausência nossa em terras distantes, ou simplesmente bate o cansaço, ou irrompe uma briga com alguém próximo - a vida tem milhares de formas de se intrometer -, suspendendo-se a escrita.

Frente à urgência do presente, o texto fica para depois de depois de amanhã. Os manuscritos criados assim se guardam cuidadosamente. São como fetos ainda em desenvolvimento no útero de nossa imaginação. Eles possuem a promessa de um livro, basta a eles reatarmos umbilicalmente esforço e compromisso no futuro.

Os coletores


Algumas pessoas se habituam a coletar sistematicamente acontecimentos cotidianos. Elas tem sempre à mão um instrumento básico de escrita - um lápis, uma caneta. Podem levar consigo cadernos de bolso. Podem dispensá-los somente pela prazer de utilizar papel empregado em outros objetos.

Entre os preferidos se incluem, por exemplo, as embalagens de pão, as correspondências, o preenchimento que se coloca no interior dos sapatos nas lojas de sapato, os panfletos do comércio do centro da cidade, as páginas de revistas em salão de cabeleireiros. Não raro, tais pessoas recortam os espaços vazios dos papéis em pequenos retângulos e os preenchem de palavras.

Constituem os modernos herdeiros dos artífices de mosaico da antiguidade. Os pequenos textos que produzem se ajuntam em um panorama maior, no limiar de uma história, com ricas possibilidades. Se a possibilidade de os reunir no corpo único de um texto por enquanto não se viabiliza, também o que se escreve merece o interior seguro de um arquivo.

O protesto do texto


Uma situação comum é se iniciar um texto a partir de uma intenção, não necessariamente de criar um livro. Fosse uma brincadeira apenas, como elaborar um conto pelo divertimento infantil de zoar de um amigo. Depois de algum trabalho, o texto protesta, dizendo que a intenção original está muito aquém do que ele apresenta.

Para nossa surpresa, descobrirmos diante de nós o livro em andamento, que expõe o ridículo de nossa proposta original e nos obriga a voltar ao começo, revisando, editando, escrevendo a história que se quer contada. É um livro que rompe e vai ganhando forma.

Histórias imateriais


Textos também se fazem sem escrita. Eles se criam oralmente, em histórias que inventamos e contamos para as crianças na hora de dormir mais de uma vez, em cada versão se prolongando, tanto pela adição de um novo personagem quanto de um acontecimento.

E se criam em histórias que contamos a nós mesmos, no recesso de mentes ociosas, talvez na busca de conforto, talvez como fuga da realidade e seus mecanismos de dominação. Aqui a intenção é forçar a materialidade do papel aos textos imateriais. Em tal esforço se cria um livro.

Vertentes


Da ideia ao texto em andamento existem, portanto, infinitas trajetórias. E elas pendem entre vertentes contrapostas, do planejamento e estrutura, do lúdico e espontâneo. Quem escreve inescapavelmente dará preponderância a uma delas ao longo do processo de criação, sempre, no entanto, se utilizando de ambas.

Dizem que Machado de Assis se destacava por sua meticulosidade e planejamento. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas", Machado desenvolveu um esquema detalhado, dividindo a obra em capítulos específicos, construindo a estrutura narrativa.

Já Clarice Lispector explorava um processo mais fluido e intuitivo. "A Hora da Estrela" foi um livro no qual a autora se deixou levar pela personagem principal, Macabéa, sem uma direção clara desde o início.

Ninguém é, todavia, inventor de tudo. Muito pelo contrário, estamos imersos na experiência cultural e somente por meio dela formamos uma individualidade. O escritor, igual a qualquer outro mortal, por mais íntima que seja sua intenção, se baseará em fontes.

Usando fontes


A primeira delas consiste na própria linguagem, cujos significados e regras estão socialmente instituídos. Cada um carrega consigo um modo de fala, um sotaque, uma visão de mundo expresso em linguagem. Além delas, outras fontes são abundantes: experiências pessoais, observações do cotidiano, eventos históricos e sociais, mitos, lendas, as relações sociais.

A lista não se esgota aí. Escrever histórias pode pedir ao escritor um mergulho em pesquisa sobre temas, geografias, eventos históricas, teorias, filosofias, questões técnicas, filologia, enfim, tudo aquilo que for necessária para a constituição da obra.

A qualidade do escritor


De nada adiantam fontes se a quem intenta escrever faltar uma sensível humildade. Uma certeza da consulta a fontes durante a criação de um livro é que iremos encontrar vozes diversas, submetidas a realidades que desconhecemos.

Um bom escritor deve ser capaz de se colocar no lugar dos outros e os compreender. Para tanto, estar de prontidão para questionar suas próprias certezas. Um bom escritor precisa reconhecer a riqueza e a diversidade humana e natural, inclusive (e especialmente) naquilo que são diferentes de si mesmo, porque indispensáveis para enriquecer uma história.

Afinal de contas, se as pessoas e o mundo são diversos, o mesmo se espera de uma história que se pretende verossimilhante.





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