Há certos livros que, por seu caráter monumental, podem alterar o campo gravitacional da literatura. "Laia Ladaia", publicado pelo escritor mineiro CF Scuo em 2023, é um deles. Com 556 páginas e 191 capítulos, a obra aborda um suposto evento ocorrido em Belo Horizonte durante a crise sanitária de 2020. Inscreve-se no rol dos principais livros de ficção escritos a respeito da pandemia de coronavírus.
A obra se inspira em "Ulisses", de James Joyce, romance que apresenta uma série de acontecimentos banais pelas ruas de Dublin, na Irlanda, ao longo do dia de Leopold Bloom. Reconhecido pela crítica anglo-saxã como um romance pioneiro do modernismo, "Ulisses" divide-se em 18 capítulos, cada qual escrito num estilo diferente - por exemplo, semelhante a uma peça de teatro, a um texto jornalístico ou à repetição e à métrica da música.
Além da variação de estilos, Joyce recheou seu livro com diversas referências, algumas obscuras e ocultas, e explorou recursos de linguagem e narrativos, como a técnica do fluxo de consciência. Esse grande número de inovações na elaboração de um romance transformou "Ulisses" numa obra celebrada pela academia.
Mas também cercada de polêmica, sendo notórios seus obstáculos à leitura. Críticos da obra ressaltaram a sua monotonia, sua opacidade e a complicação desnecessária, caracterizando-o como centrado nos modos e nas possibilidades da escrita mais do que na história - isto é, na forma em detrimento do conteúdo.
Em "Laia Ladaia" encontramos volúpia literária de proporções semelhantes. A partir de uma vasta pesquisa, CF Scuo explora dezenas de tipologias textuais, da matéria de jornal à nota oficial, de faixas e cartazes do comércio à bula de remédio, da entrada de dicionário à circular de condomínio. A lista de tipos de texto arregimentados pelo autor para a elaboração do livro é longa. Aqui, no entanto, mobiliza-se toda essa riqueza sem se perder de vista nem a história nem o leitor.
Além disso, se em literatura o conto é considerado um gênero literário, "Laia Ladaia" amplifica desmesuradamente essa definição, introduzindo dezenas de subgêneros de “contos curtos”, “contos breves” e “contos brevíssimos”. Como um fogo de artifício, o livro explode numa impressionante quantidade de cores e formatos para o gênero, como o “conto breve de acontecimento” e o “conto brevíssimo de momento”, ou aqueles ainda mais específicos, como o “conto curto psicológico”, o “conto breve de experiência pessoal” e o “conto brevíssimo de agouro”.
A estrutura de "Laia Ladaia" ergue-se, portanto, sob o signo da brevidade e de uma formidável multiplicidade de pontos de vista, de estilos e de linguagem. Tais fragmentos combinam-se num grande mosaico, por meio do qual o leitor testemunha, desde a noite anterior até a noite seguinte, a organização de uma roda de samba no bairro Anchieta, em Belo Horizonte, durante a proibição de aglomerações imposta pela prefeitura.
Acionam-se, assim, os recursos da forma em favor do conteúdo, num sofisticado jogo no qual o autor conduz o leitor a experimentar a pandemia e seus efeitos por meio da experiência alheia. Entram em cena uma quantidade imensa de personagens, cada qual com sua própria perspectiva, suas desavenças, suas crenças ou peculiaridades. Em tempos tão sombrios, "Laia Ladaia" lança luz sobre a riqueza da condição humana.
Essa monumentalidade é entregue sem peso nem opacidade, mas com domínio técnico e significativa leveza, valendo-se, muitas vezes, do humor e da ironia. Um exemplo encontra-se logo na abertura do livro, com uma advertência inspirada nas mensagens "inseridas nos maços de cigarros, destinadas a desestimular seu consumo em razão das graves consequências à saúde, como o risco de câncer."
A tipologia é ironicamente invertida, com o autor advertindo sobre os benefícios da leitura. Ela serve como subterfúgio para que CF Scuo explique ao leitor a utilidade de se consultar o último capítulo, de número 191, que traz uma breve contextualização de cada capítulo do livro ou, então, uma explicação do tipo de texto adotado. Mas o humor não se encerra aí.
Após a advertência, o segundo capítulo traz uma resenha crítica do livro, tipologia que o autor subverte e transforma em matéria ficcional. A resenha esclarece que CF Scuo, por meio das centenas de fragmentos, ambicionava criar não um livro de contos, mas “um romance geográfico, articulando a oposição entre o plano espacial, público, incluindo dados e reproduções de fatos estatísticos, e dezenas de planos individuais, nos quais experimentamos o ponto de vista dos personagens”.
A resenha compara os capítulos a reflexos em cacos de espelho, a partir dos quais se construiria um museu de nosso “feitio humano”. Os argumentos apresentados, no entanto, desmoronam quando a resenha chega ao fim, diante da dúvida sobre a veracidade dos documentos, transcrições e dados apresentados como factuais pelo autor. Talvez a roda de samba e tudo o mais que se apresenta no livro não passe de invenção.
Esse caráter lúdico, que brinca e embaralha ficção e realidade, permeia a literatura de CF Scuo. Reside aí um dos motivos do prazer que se extrai da leitura de seus livros, do mais simples ao mais monumental.
