De brutos e vivos (Romance, 2018)

Capa do livro 'De brutos e vivos', de CF Scuo, com imagem de uma igreja de São João Del Rei

"De brutos e vivos", excelente romance de estreia do mineiro CF Scuo, combina história brasileira com uma discussão sobre memória e identidade. O livro se ambienta nas ruas e logradouros da histórica São João del-Rei, em Minas Gerais. O enredo se organiza em torno do abandono do jazigo e do retorno ao mundo dos viventes pelo protagonista, um dos principais políticos da redemocratização brasileira.

Narrado em primeira pessoa, o livro se inicia com uma pergunta. “Por quê?”, questiona-se o protagonista, como se estivesse prestando contas ao leitor. “Talvez porque cansei daquela mesmice”, ele se justifica, introduzindo o traço que tinge toda a obra: o humor e a ironia. A partir daí, ele aborda suas experiências desde que escapou do cemitério.

A estrutura narrativa se divide em dois conjuntos de textos: os capítulos e os parênteses. Os primeiros trazem a descrição dos acontecimentos segundo uma temporalidade linear. Os segundos correspondem a comentários gerais ou de caráter filosófico, nos quais o protagonista pondera sobre os viventes e sobre sua própria condição de morto-vivo - ou bruto-vivo, termo que ele afirma preferir.

De seu ponto de vista privilegiado, de além-túmulo, o narrador assume, em alguns dos parênteses, uma ironia mais aguda, para grande proveito - ou inconveniência? - do leitor. Um exemplo encontra-se logo no “Parêntese A”, quando ele propõe uma explicação para a invisibilidade das pessoas sem teto (moradores de rua). Em nosso modo de vida, que produz tanto desperdício, algumas pessoas são desumanizadas. Por isso a ele, a quem a morte tolheu a humanidade, assemelham-se.

Além do uso parcimonioso do humor, a clareza da prosa permite ao romance realizar com maestria a ambição de unir fatos da história brasileira à detalhada geografia e ao folclore de São João del-Rei, bem como a questões sobre identidade e memória. A inquietude do narrador com a própria morte, seu deslocamento no espaço dos viventes - incluindo uma visita à capital federal, Brasília - constitui o fio condutor que entrelaça os diferentes elementos da narrativa.

O livro de CF Scuo se aproxima, nesse sentido, de outro clássico da literatura brasileira, no qual o narrador fala de um lugar-limite, após a morte. Trata-se de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis. Scuo igualmente utiliza títulos que dialogam com o conteúdo dos curtos capítulos e parênteses. Ambos os narradores valorizam o aforismo, o autoexame e o humor.

Mas a obra de Machado se baseia na premissa de que aquele que morre retém suas memórias e sua identidade. "De brutos e vivos" coloca em questão essa premissa, identificando o fim da vida como equivalente ao fim da memória e, por conseguinte, da identidade pessoal. O esquecimento emerge como tema fundamental.

Em comparação a Brás Cubas, o protagonista do livro de CF Scuo se revela frágil e dependente da memória coletiva de outros. Deve empreender, portanto, um mergulho em São João del-Rei, em sua topografia e em seus habitantes, em busca dos vestígios de si mesmo e de sua história. A referência a Machado funciona como linha de diálogo crítica: memórias póstumas seriam impossíveis.

Outra afinidade do livro "De brutos e vivos" é com o escritor mineiro Murilo Rubião, reconhecido como um precursor do realismo fantástico no Brasil. No conto “O pirotécnico Zacarias”, publicado originalmente em 1974, o narrador relata a dúvida que paira entre conhecidos e pessoas de sua relação: estaria ele vivo ou morto?

“Em verdade morri”, afirma o narrador, “o que vem ao encontro da versão dos que creem na minha morte. Por outro lado, também não estou morto, pois faço tudo o que antes fazia e, devo dizer, com mais agrado do que anteriormente.” Rubião admitia sua dívida literária para com Machado de Assis e "Memórias Póstumas de Brás Cubas".

"De brutos e vivos" configura-se como um romance filiado ao melhor da tradição literária brasileira, da qual extrai elementos para combiná-los a fatos e questões da contemporaneidade. CF Scuo assina um romance que pensa memória e identidade a partir de uma cidade real e de um passado político recente, sem abrir mão de uma escrita precisa e dotada de profunda capacidade inventiva.