Em "A vida em pedaços", CF Scuo emprega uma diversidade narrativa para investigar a complexidade dos laços que nos unem e nos definem. Ao longo de nove contos de vigorosa originalidade, o autor transita com destreza por vozes distintas, explorando desde a intimidade familiar e as tensões entre criador e criatura até o encontro inusitado entre um jornalista esportivo e seu ídolo.
A coletânea abre com uma nota curiosa, em que o autor relata o encontro com o amigo e poeta crroma (cê-erre-roma). No que parece ser um texto mais ficcional do que factual, ficamos sabendo que o livro que temos em mãos havia sido escrito por crroma tempos atrás - não se menciona quando. Desapontado, por se entender capaz apenas de poesia, o amigo decide doá-lo como manuscrito a CF Scuo.
Se é verdade ou não, pouco importa, uma vez que a escrita de CF Scuo se destaca pelo profundo diálogo entre fatos e ficção, em que vida e literatura se interpenetram para grande benefício desta última. O resultado são magistrais contos breves - o livro tem 139 páginas -, evidenciando a qualidade e, certamente, o prazer do escritor em trabalhar a linguagem.
O nome do livro deriva do título do primeiro conto, “Amélia em pedaços”. Nele, pretende-se demonstrar que “não há e nunca houve um ser humano fora do comum”, utilizando como evidência episódios da vida de Amélia, apresentados em fragmentos, quase à maneira de um diário. Cada trecho se inicia com a indicação do dia e do local, seguida de uma breve contextualização de eventos aleatórios ocorridos na mesma data, como se o autor ironicamente sugerisse a frivolidade do que será narrado sobre a personagem.
O conto, contudo, constrói justamente o contrário, mergulhando o leitor nas relações familiares e amorosas de Amélia, onde se encontram perdas, intimidade, dores e companheirismo. Se acompanhar a protagonista contraria a ideia do narrador de que “o traço universal do ser humano é nada ter de extraordinário”, em especial no belo e algo surpreendente desfecho, ao mesmo tempo a confirma, pois tratam-se de experiências e sentimentos comuns a qualquer pessoa.
O trabalho de explorar a ordinariedade do cotidiano para dela extrair o extraordinário - aquilo que também nos toca e nos diz respeito - ocorre ao longo dos contos de "A vida em pedaços". Para tanto, CF Scuo emprega, como um exímio mestre do ofício, diversos instrumentos e recursos literários. No segundo conto do livro, “Renato não sai mais da cama”, as primeiras linhas demarcam, com uma objetividade que remete à abertura de "A Metamorfose", de Kafka, a decisão do protagonista, Renato, de permanecer para sempre no quarto.
Por interromper um hábito diário, essa decisão colocará em movimento as duas pessoas mais próximas de Renato, numa quebra da rotina que instaura a possibilidade de um futuro um tanto familiar. Em “Majestade”, um obeso repórter esportivo - que a charanga da arquibancada chama discriminatoriamente de “Gordo” - narra os acontecimentos durante uma partida de futebol, em um texto que toma de empréstimo a linguagem do radialismo esportivo. É um dos melhores contos brasileiros já escritos sobre o esporte.
Difícil definir, em "A vida em pedaços", um texto superior aos demais. Talvez a mais aguda convergência entre técnica e imaginação seja “Último desejo”, conto no qual o ofício da escrita é apresentado de modo explícito, ao tratar da relação de uma narradora com um personagem por ela criado, Leonardo, e que ela decide exterminar por não se sentir capaz de continuar a história.
É possível, no entanto, indicar aquele que mais se diferencia do restante da obra. Trata-se do conto que fecha o livro, “Gênesis ou a crítica do criacionismo”, simultaneamente uma sátira ao texto bíblico e uma crítica ao cientificismo. Empregando uma perspectiva filosófica, o conto propõe uma interpretação artística para a criação do Universo e dos seres humanos.
"A vida em pedaços" é um convite para olhar o outro através de um espelho, no qual podemos enxergar a nós mesmos e a nossa diversidade de viver e sentir.
