Da plataforma em que publico meus livros, recebo frequentemente e-mails promocionais. Muitos deles apresentam um caráter motivacional, de forma a estimular as pessoas a publicarem mais, pois é assim que a plataforma faz dinheiro. E um dos principais argumentos associa a publicação do livro ao sucesso.A tecnologia facilitou a publicação e comercialização de livros físicos ou digitais, o que foi acompanhado pelo surgimento de uma pequena indústria de propaganda, responsável por fazer o mecanismo girar. É corriqueiro encontrar endereços eletrônicos ou vídeos sobre como escrever, como publicar, como divulgar um livro.
Lendo o último e-mail, estampando os líderes de venda do mês, lembrei-me daquele ditado popular: "de grão em grão, a galinha enche o papo." A galinha estaria em melhor situação do que aquele que escreve, pois é algo raro a escrita encher o papo de alguém. Ao contrário da promessa publicitária de sucesso, quem faz literatura depende, via de regra, de outra atividade para sobreviver.
Também não deixa de ser verdade que, de livro em livro, forma-se uma escritora ou um escritor. Mas se trata de um processo longo, às vezes - frente às outras demandas da vida - espinhoso, e sem qualquer retorno financeiro relevante. Ainda aproveitando o ditado popular, corresponderia a algo do tipo: "de grão em grão, o pintinho vira galinha."
Dessa forma, para quem não consegue atravessar o dia sem o exercício da literatura - escrevendo prosa ou, coisa pior, poesia -, recomenda-se conseguir um bom emprego, para se evitar uma barriga vazia. E perseverar, com a humilde consideração de que, se, no final, tudo der certo, a realização virá em se tornar uma galinha. É isso o que nos ensina o exemplo de autores do passado.
Do Próprio Bolso
Pode não parecer, mas vários dos livros que ocupam as prateleiras de bibliotecas, livrarias ou escolas começaram como edições de autor, ou por selos de pequeno porte, com baixas tiragens e lenta difusão. Os exemplos aqui reunidos apontam para a difícil trajetória editorial de autoras e autores.
Campo fértil deles é a poesia, a mais marginal das artes literárias. E pode-se começar a lista de exemplos com um dos mais ilustres recifenses, nascido em 1886, cuja obra está presente em currículos escolares e teses universitárias: Manuel Bandeira, um dos pilares da poesia brasileira.
Em 1917, Manuel estreou através do livro 'A Cinza das Horas', cuja impressão numa tipografia do Rio de Janeiro, então capital federal, foi paga por ele, com tiragem de cerca de 200 exemplares. Longe de ser um best-seller, o livro circulou pelo espaço da elite cultural da época, como periódicos e grupos literários.
Graças à boa recepção ao livro, Manuel, que se considerava um poeta menor, decidiu prosseguir com a poesia. Seus próximos lançamentos compartilharam a mesma característica da baixa tiragem.
Não foi diferente com outro pilar da poesia brasileira - talvez, seu maior representante do século XX. Filho da provinciana Itabira, no interior de Minas Gerais, Carlos Drummond de Andrade seguiu, em sua estreia, os mesmos passos de Manuel. Bancou do próprio bolso, em 1930, uma modesta tiragem do livro 'Alguma Poesia'.
As pequenas tiragens caracterizariam a maior parte dos livros de Drummond. Casas de leilões vendem suas primeiras edições como artigos de colecionador (o que vale para vários outros escritores). Um caso especial foi o livro 'Sentimento do Mundo', editado pelo autor e cuja tiragem se limitou a 150 exemplares.
O pau que dá em Chico também dá em Francisca. No caso, em Cecília Meireles, cujo percurso na poesia repetiu a mesma regra. Seu primeiro livro saiu com uma minguada edição, custeada pela poeta. Aconteceu assim também com Murilo Mendes, Hilda Hilst, João Cabral de Melo Neto, Mario Quintana e Ferreira Gullar.
Se, para a poesia, as edições se restrigiam a uma centena ou mais de exemplares, para os livros em prosa a situação não era muito melhor. Em 1928, Mário de Andrade lançou as 800 cópias do livro 'Macunaíma'. Dez anos depois, em 1938, sairia a primeira edição do livro 'Vidas Secas', de Graciliano Ramos, publicada pela editora José Olympio, com tiragem de 1.000 exemplares.
Premiado como melhor romance de estreia pela Fundação Graça Aranha, 'Perto do Coração Selvagem', de Clarice Lispector, foi publicado em 1943, também com tiragem de 1.000 exemplares.
Existiram exceções à regra. O baiano Jorge Amado, por exemplo, vendeu aproximadamente 20 milhões de livros no Brasil. No auge do sucesso de público, as primeiras edições de seus livros contavam milhares de exemplares.
O início precoce de sua carreira, contudo, enfrentou a mesma realidade dos demais. Seu romance de estreia, 'O País do Carnaval', publicado em 1931, quando tinha somente 18 anos, teve tiragem de 1.000 exemplares. Dois anos depois, 'Cacau' foi publicado com tiragem inicial de 2.000 exemplares, esgotando rapidamente.
Risco e Prestígio (Capital Simbólico)
A maioria das autoras e autores do cânone brasileiro poderia compor a lista acima. Eles possuem em comum o fato de que a edição de suas obras saiu em pequenas tiragens, tipicamente de algumas centenas a pouco mais de mil exemplares. No caso da poesia, muitas edições pareciam itens de colecionador, em função da diminuta quantidade.
Esse modo de proceder ganhou forma no início do século XX. O livro era um objeto circunscrito a um espaço de elite cultural, um reflexo de como se organizava a sociedade, ainda baseada na economia agrícola de exportação de matéria-prima, e, sob as heranças da escravidão e do conservadorismo, com boa parcela da população alijada da literatura.
Além disso, a leitura como prática se concentrava numa classe pouco numerosa. Não havia uma estrutura nacional de consumo da literatura, como uma rede forte de bibliotecas, revistas especializadas de grande circulação ou clubes de leitura. A infraestrutura de distribuição - livrarias, redes de varejo, bancas - se consolidaria no Brasil e ganharia maior capilaridade somente no final do século XX.
O livro circulava em saraus, na imprensa, academias, nas poucas universidades, em livrarias e pelas mãos de editores. Nesse contexto de demanda incerta, imprimir pouco significava reduzir, ou mesmo eliminar, o risco de estoque encalhado, bem como o volume de capital (ou dinheiro) imobilizado na produção física do livro.
O mercado editorial, portanto, realizava-se pautado numa economia de cautela, em que o livro não correspondia a uma mercadoria de massa. A ênfase recaía no prestígio da obra, entendida como artefato cultural, cuja reputação (o capital simbólico) poderia se converter em demanda. O prestígio estimularia o interesse e a leitura, promovendo, com isso, a possibilidade de ganho em reedições ou reimpressões.
A acanhada quantidade de editoras, sua tática de impressão em pequena escala, abria espaço para que autores organizassem o próprio lançamento de seus livros. Se o prestígio dependia do trânsito nos círculos exclusivos da literatura, isso significava tanto a circulação das obras quanto a circulação dos autores, por meio de relacionamentos pessoais e profissionais.
Tomem-se as biografias dos participantes das primeiras gerações do modernismo. Via de regra, eles pertenciam à mesma rede de escritores ou interessados em literatura e arte. Naquele tempo, essas redes eram circunscritas à geografia local, com São Paulo, devido à pujança econômica, e o Rio de Janeiro, capital federal, destacando-se como centros de liderança nacional.
Um dos melhores registros dessa rede foi preservado por Mário de Andrade. Ele arquivou seu relacionamento com dezenas de outros escritores e artistas, ficando famosa sua troca de cartas. Muitos outros autores também organizaram arquivos, incluindo igualmente cartas, manuscritos, artigos.
Com raras exceções, os escritores do início do século XX contribuíam com jornais e revistas da imprensa, na época o principal meio de difusão de obras literárias. Não só trabalhavam de jornalistas nos periódicos, assinavam colunas e crônicas ou conheciam os donos: eles frequentemente criaram periódicos próprios, como a Klaxon, a Revista de Antropofagia e a Revista Verde.
Outra coisa relativamente comum era o conhecimento travado entre eles e atores ligados à política. Muitos autores obtinham sustento no serviço público, assumiam cargos na administração pública, ou então concorriam a vagas no legislativo.
O prestígio era um ativo que podiam converter em capital social/financeiro, como o cargo de diplomata de João Cabral de Melo Neto ou as posições no serviço público de Machado de Assis e Drummond. Outros, pela oposição que ergueram contra governos ou regimes, sofreram perseguições - houve quem, como Graciliano Ramos, amargou tempo na prisão.
A escrita não enchia o papo de praticamente ninguém. Mas dava prestígio, e podia até dar cadeia.
De Segunda Categoria
Muita coisa mudou desde o início do século XX. O mercado editorial cresceu e se profissionalizou. Multiplicaram-se a quantidade de editoras, de grandes a pequenas, que incluem um conjunto de profissionais responsáveis pela revisão do texto, pela diagramação, pela negociação de direitos autorais, pelo marketing, entre outros.
O sistema de distribuição cresceu, com empresas cuidando do serviço de ligar as editoras a milhares de pontos de venda, como livrarias e bancas, espalhados pelo país. Expandiu-se o número de bibliotecas públicas e privadas. Os espaços de mediação e crítica da literatura se ampliaram, abrangendo os cadernos de cultura dos jornais, as revistas literárias, as secretarias de cultura da administração pública, as universidades, as feiras literárias ou os concursos e prêmios literários.
Apesar disso, a colonialidade brasileira se manteve quase a mesma. Seus reflexos se fazem sentir no mercado editorial. A indústria de papel, matéria-prima essencial para a impressão de literatura, ocorre nos moldes arcaicos da colonialidade, baseada em latifúndios de monocultura de eucalipto. O país é um dos maiores produtores mundiais de celulose para exportação.
O setor cumpre o papel de "fazenda global," fornecendo insumos de baixo custo para nações mais desenvolvidas. Se o custo unitário é competitivo, graças à escala industrial, subsídios setoriais e a rapidez do ciclo de crescimento do eucalipto - pela disponibilidade de sol e de água -, isso em nada barateia o preço interno do papel, uma vez que as receitas e decisões de preço se vinculam à dinâmica dos mercados internacionais.
Em vez de usar as vantagens em favor do país, elas se direcionam para o estrangeiro, ficando o Brasil em segundo plano. O mercado interno não deve ser nem empecilho nem concorrente ao mercado estrangeiro. O preço doméstico do papel fica sujeito às oscilações do preço internacional em dólar, impactando toda a cadeia de produção gráfica. Encarece a impressão de livros.
O modelo econômico e simbólico da colonialidade, que deixa o Brasil em segundo plano, transforma os brasileiros em cidadãos de segunda classe. O custo salarial mais baixo reduz o custo de produção por tonelada, sendo um dos fatores da competitividade de setores que exportam matéria-prima.
Posicionando-se como vetor de desenvolvimento, o modelo sequestra o Estado, principal agente de organização social. Angaria decisões políticas e econômicas estatais favoráveis, em forma de subsídios, da estruturação de taxas e impostos, de investimento e pesquisa, do acesso ou disponibilidade de infraestrutura, energia e água.
O Estado age, inclusive, na garantia de que a mão de obra - de cidadãos de segunda classe - se reproduza barata, beneficiando tanto os custos de produção quanto impedindo que o mercado interno se fortaleça, competindo com o mercado estrangeiro.
A colonialidade está presente também na outra ponta do mercado editorial, o consumo de livros. Historicamente, o setor apresenta, no Brasil, uma enorme dependência do Estado. Segundo dados da CBL/Nielsen BookData, dos 328 milhões de livros vendidos em 2023, 51% deles eram didáticos, destinados à rede de ensino público.
Compare-se com os dados da Associação de Editores Americanos - AAP, dos Estados Unidos. Em 2024, o mercado editorial lá faturou 32,5 bilhões de dólares. A maior fatia veio dos livros classificados, no Brasil, como obras gerais - ficção e não ficção para adultos e crianças, com vendas de aproximadamente 19 bilhões de dólares. Dados de uma pesquisa de 2018 apontavam que 7 em 10 adultos dos EUA havia lido pelo menos 1 livro.
Era de se supor, a partir da prioridade dada aos livros didáticos no mercado editorial do país, que ocorreria aqui uma boa formação dos alunos, o que as críticas cotidianas ao sistema público mostram não ser verdade. No país que fica em segundo plano, com cidadãos de segunda categoria, a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, de 2024, indicava que menos de 2 em 10 adultos compravam livros.
Sob o viés do modelo econômico e social da colonialidade, o Estado brasileiro tem abdicado da função de desenvolvimento pessoal e cultural de seus cidadãos através da educação. Por outro lado, o sistema educacional público funciona como pilar do mercado editorial interno, sem o qual não se sustentariam editoras, distribuidores, livrarias e outros.
Há eficiência em consumir livros, mas falhas, por causa das decisões políticas, em educar a partir deles. Ao colocar seu peso na sustentação do mercado editorial, o Estado se converte num dos maiores consumidor individual de papel dolarizado, cuja cadeia econômica está orientada para o benefício estrangeiro. A ironia é, sem sombra de dúvida, a principal marca da identidade brasileira.
Os dados sobre a produção de livros e sobre a leitura no Brasil revelam os enormes obstáculos para que a literatura se realize como objeto de consumo. As obras de ficção e não ficção respondiam por 29% das vendas em 2023, numa acentuada trajetória de queda (considerando-se o crescimento do PIB) desde pelo menos 2005.
Parado no Tempo
Eis um dos efeitos da colonialidade: a repressão das manifestações culturais dos povos colonizados, vistos como mais atrasados ou primitivos. Frente a tantos obstáculos, a literatura brasileira sofre para se desenvolver com plenitude. Como se o tempo não tivesse passado, autoras e autores de hoje se deparam com a mesma situação de baixas tiragens.
Uma das melhores escritoras do século XX, Lygia Fagundes Telles ganhava o sustento como advogada do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo. Dinheiro proveniente da literatura veio somente por meio de prêmios - ela ganhou, entre outros, quatro vezes o Jabuti, e o prêmio Camões.
A poeta Hilda Hilst dependia dos pais para se sustentar. Dinheiro com literatura, assim como Lygia, veio quando venceu o concurso Moinho Santista de melhor poesia. "Ganhei um prêmio de R$ 70 mil. Foi a primeira vez que vi dinheiro na vida," ela afirmou em entrevista a um jornal.
Num país reprimido pela colonialidade, sucesso financeiro com obras de literatura se torna um sonho praticamente irrealizável. Fazer literatura, insistir com a escrita ao longo dos anos, consiste num ato de resistência. Deve-se estar pronto para assumir uma jornada dupla, no trabalho de todo dia, de 8 às 18 horas, e na escrita, o trabalho das horas vagas.
A escrita não presta para se encher o papo. As obras de literatura conquistam leitores pelo prestígio, que se constrói por processos cumulativos através da mediação de vários atores, como editoras, críticas da imprensa e da academia, prêmios literários, etc. Construção que, em casos raros, pode ser ligeira, mas usualmente se desdobra a passos de tartaruga.
Melhor não incluir aqui outro animal. Fiquemos, assim, somente com a galinha, símbolo do que a escrita pode aspirar a ser. Bom seria se fosse poedeira de ovos de ouro. O mais realista é se dedicar para que ela tenha uma postura longa e frutífera. Da qual, e isso somente o tempo dirá, seja possível fazer um bom omelete.
Escritor