O cânone literário em discussão - Escritor C F Scuo
Ana Clara MeloCrítica literária

O cânone literário em discussão

Uma importante mudança se observa no campo literário. A avaliação crítica quebrou o lacre da caixa preta do cânone literário que, a partir de então, tem sido debatido e questionado. Isso é bom para a literatura, ruim para os velhos paladinos de uma retrógrada tradição.

Nova luz e ares começam a penetrar na definição do cânone literário, em especial alertando para a questão de que existem pessoas, entidades e normas por trás da noção de cânone. Expôs-se a farsa do argumento de que uma obra entraria para o cânone exclusivamente por características estéticas inerentes.

Argumento, aliás, que representa apenas mais um exemplo da estratégia de dissimular que todo fazer humano implica relações culturais, políticas e de poder.

O que é cânone literário


No século III A.C., um dos principais centros de conhecimento da antiguidade era a biblioteca de Alexandria, localizada no Egito. Um marco cultural e símbolo de poder dos governantes egípcios, a biblioteca acumulava milhares de volumes literários, acadêmicos e religiosos.

Para classificar esse material, os responsáveis pela biblioteca elaboravam um lista de obras e autores, elegidos como referência de ramos da literatura e do conhecimento, como poesia, comédia, história e assim por diante.

Tal lista ganhou o nome de cânone - do original grego Kanon, significando instrumento de medir.
A partir dela se podia comparar e classificar as demais obras. Clássico era a palavra alexandrina correspondente a cânone e também passou a denominar os livros de referência da lista. Os clássicos.

Na atualidade, o cânone literário ganhou uma outra conotação. Se a antiguidade o empregava enquanto instrumento de referência para a organização de obras em uma biblioteca, ele passou a representar uma lista de obras de uma suposta excepcionalidade, universais, eruditas.

E seriam eleitas a partir de valores estéticos próprios, objetivos. Os críticos as escolheriam feito fazendeiros a colher as espigas mais maduras de um milharal.

Valores o quê?


A noção contemporânea de cânone literário se sustentava em uma interpretação objetiva. Segundo essa lógica, a arte se constitui de objetos que apresentam valores estéticos próprios, passíveis de serem experimentados por uma pessoa.

A proposta de obra artística como o objeto dotado de valor estético deriva da antiguidade. Ligava-se à tentativa de definição do belo e do feio, da harmonia, da simetria, daquilo que em nós provocava admiração ou conduzia à contemplação.

Esse esforço de definição de arte e de valor estético logo se mostrou em vão. Após milênios de produção artística, a história mostrou que ambos os conceitos sofrem de imprecisão. Eles tem limites porosos. Os conceitos de arte e de valor estético - portanto de objetos considerados artísticos - se modificaram com o tempo.

Pode-se provar o valor estético de um objeto em bases objetivas, 'científicas'? Impossível, afirma a história e afirmam as obras de arte que encontramos em museus e outras instituições culturais ao redor do mundo.

Tal impossibilidade se aplica à arte e, consequentemente, à literatura.

Obra e poder


Em vez de uma fórmula estática, a estética literária é uma manifestação fluida, situada na junção entre a organização sócio-cultural de uma determinada época, o escritor e sua obra literária, as demais obras contemporâneas e aquelas do passado.

No objeto literário é possível identificar um conjunto de características estéticas, abrangendo, por exemplo, a estrutura formal, o estilo, o tema ou o ritmo. O processo de identificação se dá não pelo acaso, mas segundo um procedimento baseado em competências e autoridade (poder), por profissionais pertencentes à instituições, sob um arcabouço de regras mais ou menos explícitas.

Trata-se do crítico literário na seção de cultura do jornal. Do professor ou de estudantes universitários em artigos em revistas especializadas. De editores divulgando o lançamento de livros publicados por suas editoras. De juízes de concursos literários. De professores de português e literatura em salas de aula, guiados por livros didáticos. Também de influenciadores que alcançaram grande número de seguidores em mídias sociais.

Esse conjunto histórico estabelece as possibilidades da produção intelectual e discursiva a respeito da literatura. E também os espaços de circulação desse discurso - por exemplo, a imprensa, a academia, as bibliotecas, as escolas, as secretarias de cultura, as livrarias, as editoras, etc.

Esse grupo de pessoas, ligadas a instituições e sob o regimento de regras sociais e culturais, por meio de interações e debates, detém o poder de atribuir o estatuto de literário a um texto escrito - traçando limites (mesmo que frágeis e temporários) entre o que é e o que não é literatura. E poder também de hierarquizar as obras literárias - definindo o cânone.

Todos os matizes


Uma das manifestações desse arcabouço sócio-cultural pode ser facilmente encontrada. Uma das extremidades desse circuito discursivo circula diariamente pelos aplicativos sociais. Aquelas mensagens compartilhadas com a lista dos melhores romances, o poema mais bonito de fulano, a citação (atribuída, mas será verdade?) a sicrano? Um poema de grande beleza?

São todas reproduções do discurso emanado pelos centros de poder do campo da literatura. Em grande parte produzidas por aqueles cujo papel se limita ao de consumidor e propagador, talvez em busca de  identificação com o imaginário social do literário 'erudito'.

A avaliação crítica mais atual veio questionar o arcabouço literário de profissionais, instituições e espaços de circulação. Denunciou o modo como o controle do poder impacta negativamente a compreensão da literatura, distorce a recepção de obras literárias, a formação e a liberdade dos leitores.

Inevitável que a crítica questionasse também o cânone literário. Mais do que discutir quais obras devem participar do cânone, inquiri-se o que é e qual o seu propósito. Nesse bojo, descobriu-se, por exemplo, como no passado o discurso literário excluiu as mulheres e outros grupos sociais, extrapolando questões meramente 'estéticas'.

O esforço de questionamento amplia a representação de obras em consideração, promovendo uma visão mais abrangente da diversidade literária do passado até os dias presentes. Ao propiciar uma avaliação mais balanceada a diferentes vozes, amplia a complexidade literária e enriquece o cânone.

A motivação por trás da criação literária é vasta e variada, envolvendo o desejo de expressar, de explorar diferentes facetas da experiência humana. A crítica precisa zelar por essa dinâmica cultural através da autocrítica de suas estruturas institucionais, pessoais e materiais que a viabilizam gerar um discurso consistente a respeito da literatura.

Além disso, precisa impor a si mesma, aos seus afazeres, maior transparência, no constante exercício de compreender a si mesma e a seus vieses, trazendo-os à público. Só assim se constitui em uma crítica que valorize a riqueza literária de uma tradição, abrangendo todos os seus matizes.





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