O insólito nosso de cada dia

Xilogravura tipográfica quadrada em preto e branco mostrando Murilo Rubião como um mágico, sentado diante de uma mesa de madeira e retirando um coelho de uma cartola. O fundo é de papel branco felpudo, com textura artesanal e linhas grossas gravadas que formam o contraste entre luz e sombra, evocando o estilo de gravura tradicional.
Talvez o escritor brasileiro mais estranho do século XX tenha sido Murilo Rubião. Se a crítica costuma organizar escritores em escolas ou movimentos, o mineiro de Carmo de Minas escapa a classificações. Sua obra permanece um caso singular: pequena e, ao mesmo tempo, formadora de um universo literário reconhecível.

Apontado pela crítica como precursor da literatura fantástica no Brasil, a trajetória de Murilo Rubião desafia os padrões tradicionais de produtividade e consagração literária. Ele foi um escritor de exígua produção, com algumas dezenas de contos revisados quase ininterruptamente ao longo de mais de quatro décadas de atividade.

O reconhecimento público veio tarde. Foi um peixe fora d'água, mas, como numa de suas histórias, caminhando despreocupadamente pelas ruas de Belo Horizonte.

Murilo homem

Nascido em 1916 na localidade de Silvestre Ferraz, atual município de Carmo de Minas, Murilo Álvares Rubião era filho de Eugênio Álvares Rubião e Maria Antonieta Ferreira Rubião. Os homens da família escreviam - as mulheres, naquela época e local, ainda não haviam conquistado a liberdade de fazer literatura. Murilo recordava-se de livros e escritos do avô, do pai, do tio e de primos, destacando, entre todos, o escritor Godofredo Rangel.

O avô havia sido dono de fazendas e de escravizados, dos quais se desfez para montar uma farmácia em Silvestre Ferraz. Outro ancestral - talvez um bisavô - foi capitão de navio negreiro, figura romantizada por Murilo como alguém de força e coragem, de "estatura gigantesca, ombros largos, que desde rapaz navegava em veleiros que iam à cata de negros para as lavouras do país". Minimizavam-se os horrores da escravidão para exaltar a genealogia.

Cedo a calvície tomou-lhe o cabelo. Ele deixou crescer o bigode e, segundo Otto Lara Resende, possuía um cacoete de tímido, passando a mão pela calva. Nas fotografias, preferia o chapéu. O resíduo de uma gagueira, notava outro companheiro de letras, revelava-se quando Murilo ficava nervoso ou perplexo, engolindo a letra r ou expressando-se com um arranque verbal atropelado.

Mudou-se Murilo para Belo Horizonte aos sete anos de idade, cidade na qual completaria os estudos escolares e o superior, formando-se em 1942 na Faculdade de Direito. Afirmava jamais ter sido o primeiro aluno em qualquer disciplina. Murilo não exerceria, contudo, a profissão de advogado, nem sequer retiraria o diploma de bacharel, pois em 1938 embrenhou-se pelo jornalismo como redator do jornal A Folha de Minas, função que exerceria por mais de dez anos.

Tímido e de ar cerimonioso por herança paterna, a vida privada de Murilo Rubião foi bastante discreta. Não se casou nem teve filhos. Era celibatário e dizia não sustentar nenhuma crença religiosa, apesar de amigos apontarem sua postura ética baseada nos Dez Mandamentos e uma fé nutrida por Nossa Senhora. Apesar do gosto pela boemia, tinha certa dificuldade de se aproximar das pessoas. Era sociável desde menino e, ao mesmo tempo, independente, cultivando a solidão.

Tamanha discrição acompanhava-se de um impulso arquivista. Murilo guardava e catalogava documentos que julgava servirem como testemunho de sua trajetória pessoal e literária. Disponível no Acervo de Escritores Mineiros da Biblioteca Central da Universidade Federal de Minas Gerais, o arquivo de Murilo Rubião contém mais de 9 mil documentos manuscritos e datilografados, cobrindo da infância à vida adulta.

Encontraria no funcionalismo público seu principal modo de sustento. Em 1943, ocupou o cargo de diretor da Rádio Inconfidência de Minas Gerais - rádio pública, pertencente ao governo do Estado, fundada em 1936. A carreira na administração pública o levaria a trabalhar na capital federal - na época, o Rio de Janeiro -, a servir como chefe de gabinete do governador Juscelino Kubitschek em Minas Gerais e como adido cultural junto à Embaixada do Brasil na Espanha.

Designado em 1961 para a redação do jornal oficial do Estado, o Minas Gerais, Murilo Rubião permaneceria junto à Imprensa Oficial até se aposentar como diretor de publicações, em 1975. Ato de que mais se orgulhava, fundou o Suplemento Literário de Minas Gerais em 1966, jornal que logo ocuparia a posição de um dos mais relevantes órgãos da imprensa cultural do país, abordando a literatura mineira, nacional e estrangeira.

Ironicamente, Murilo apresenta o funcionalismo público com cores negativas no conto O Ex-Mágico da Taberna Minhota. Órfão, sem país e sem passado, o narrador descobre-se dotado de poderes mágicos. Adota a profissão de mágico, obtendo enorme popularidade, mas as façanhas ininterruptas que o acompanham nas tarefas comuns do dia a dia - ao mexer nos bolsos, dali saíam maritacas -, inclusive ao dormir, exasperam-no a ponto de decidir pôr fim à própria vida.

A magia, contudo, frustrava suas tentativas: quando ele empunhou uma pistola para disparar contra a têmpora, ela transformou-se num lápis. A solução aparece ao acaso, quando um homem triste, na rua, confessa-lhe que "ser funcionário público era suicidar-se aos poucos". Empregando-se numa Secretaria de Estado, bastou um ano para que a burocracia eliminasse seus poderes.

Em vez da morte, o narrador depara-se com o arrependimento. Está preso na "pior das ocupações humanas", com saudades de sua vida de mágico. Ao contrário do personagem, a morte veio colher Murilo em 1991, aos 75 anos de idade, em Belo Horizonte, cidade onde pretendia morrer, ganhando morada definitiva no Cemitério do Bonfim, sem incômodo a ninguém.

Murilo fanático

Do poeta fracassado criou-se o escritor de contos. O envolvimento de Murilo Rubião com a literatura teve início na adolescência, por meio de dois livros de poesia. Achando-as de pouco valor, ele jogou os livros fora e interessou-se pela prosa ficcional, que girava, a princípio, em torno dos temas peculiares da loucura e dos hospícios.

Os plantões noturnos da redação do jornal Folha de Minas eram cheios de horas vagas, nas quais Murilo matutava suas histórias. Contou a um colega de trabalho, Fernando Sabino, uma dessas histórias, mas, encabulado e sem coragem de admitir que a havia imaginado, disse tratar-se de um sonho. Depois de escutá-la pacientemente, Sabino julgou que a história, em vez de sonho, poderia se transformar num conto.

A partir daí, Murilo Rubião abraçou sua vocação pelo fantástico, que atribuiria, em parte, à sua convivência desde a infância com as histórias de Maria do Chico - preta velha da casa dos pais, cujos contos tinham o estranho como elemento constitutivo -, bem como a contos infantis, contos de fadas e romances como Dom Quixote. Publicou os primeiros contos em jornais e revistas mineiras na década de 1940.

Uma de suas grandes paixões - ou obsessões - eram as principais obras de Machado de Assis. Murilo Rubião alardeava que, aos 21 anos de idade, já havia lido Memórias Póstumas de Brás Cubas vinte vezes. Certa vez, a um amigo, revelou que, para aperfeiçoar a escrita, praticava o exercício diário de copiar os livros de Machado de Assis. Apontava, na obra-prima de Machado, a presença do fantástico.

Até 1940, Murilo tentou escrever dois romances, sem sucesso. Havia, por outro lado, concluído o primeiro livro de contos. Conseguiria publicá-lo somente sete anos mais tarde, em 1947, sob o título de O Ex-Mágico, pela editora Universal, do Rio de Janeiro. Inicialmente, Murilo bancou um quarto da tiragem de 2 mil exemplares e, em seguida, comprou outros mil exemplares - por receio de que encalhassem - para distribuir a conhecidos em Belo Horizonte.

Os sete anos de espera corresponderam a sete anos de intensa revisão do texto. Tanto esforço, Murilo reconheceria, não rendeu o livro melhor. Nem poderia, porque o insólito, nele, transbordava do texto para o fazer literário: como no conto O Edifício, em que um engenheiro se entrega à construção de um prédio ao qual, por uma força desconhecida e irrefreável, sempre se acrescenta um andar novo, Murilo era autor de uma obra continuamente inacabada.

Ele definia-se como alguém que escrevia muito, mas aproveitava e publicava pouco. Justificava essa conduta como forma de evitar o desperdício de produzir uma obra extensa, pois o importante seria a qualidade. O próprio Machado de Assis servia de exemplo: entre as dezenas de livros publicados pelo Bruxo do Cosme Velho, Rubião identificava apenas cinco obras-primas: os romances Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, além de dois livros de contos.

Todo escritor estaria submetido a essa sina. De nada adiantava insistir numa obra profusa se o tempo agia de modo implacável no julgamento de sua qualidade e, consequentemente, de sua relevância e permanência. Um escritor de sucesso, sugeria a visão pessimista de Murilo Rubião, lograria entrar para o cânone com somente uma obra de renome.

Assombrava-o o fantasma da permanente insatisfação. Os livros que Murilo publicava não correspondiam a uma obra pronta e fixa, como se fossem estátuas de mármore. Muito pelo contrário. As leituras do primeiro livro publicado provocaram-lhe uma ânsia revisionista. Dos 15 contos originais de O Ex-Mágico, ele descartou 3 e reescreveu profundamente os outros 12, cortando parágrafos ou até páginas inteiras.

Buscava uma perfeição cujo brilho intenso cegava os olhos de quem se arriscasse a observá-la, sendo, por isso, desconhecida. Procedimento idêntico seguiu a publicação de livros posteriores, que se compunham em grande medida de textos retirados de obras anteriores. O livro A Casa do Girassol Vermelho, por exemplo, fundia trechos reescritos de contos de várias épocas.

Se não fossem completamente abandonados, os textos anteriormente publicados sofreriam atualizações quase infinitas. Toda vez que publicava um conto, Murilo Rubião o modificava. Vislumbrou a possibilidade de suspender a prática incessante da reescrita para os livros O Pirotécnico Zacarias e A Casa do Girassol Vermelho, e isso por causa do tédio.

Ou talvez não estivesse sendo sincero. Como um de seus personagens, ao longo de seu trajeto literário, Rubião tentava alcançar, feito um fanático, em todos os diferentes livros, a mesma, única e misteriosa substância.

Murilo fantástico

Apesar de traços do fantástico estarem presentes em autores brasileiros como Álvares de Azevedo, Machado de Assis e Monteiro Lobato, essa perspectiva pouco ou nada havia sido trilhada na literatura nacional. O regionalismo dominava o romance. Nesse contexto, os contos de Murilo Rubião, imersos no que posteriormente ganharia o nome de "realismo mágico" ou "realismo fantástico", representavam um ponto fora da curva.

A compreensão sobre o autor e seu lugar na literatura nacional levaria décadas, amadurecendo a partir de 1970. A impressão imediata da novidade introduzida pelo livro O Ex-Mágico, todavia, saiu em um artigo do crítico literário Álvaro Lins no jornal Correio da Manhã, em 1948, no qual elogiava a unidade substancial e formal do conjunto de contos, criados a partir de um "tipo particularíssimo de realização artística".

A novidade proposta por Murilo Rubião comparava-se, segundo Álvaro Lins, a outra novidade recentemente aportada no país vinda do estrangeiro: Franz Kafka. A prosa de ambos aproximava-se pela apresentação de um mundo surreal e absurdo, mas que se propunha verossímil em relação ao mundo que habitamos. A representação do absurdo pelo autor brasileiro, todavia, ainda seria falha e incompleta.

O texto de Murilo produzira surpresa. Era impossível interpretá-lo sob as luzes da literatura brasileira tradicional, obrigando o crítico, ao expor suas impressões de leitura, a recorrer a uma referência estrangeira. Mesmo recurso, aliás, foi utilizado em carta de Mário de Andrade enviada a Rubião em 1943, após a leitura de um de seus contos. Mário identificou nele o mesmo dom de Kafka de "impor o caso irreal".

Frente à ausência de recursos interpretativos suficientes para lidar com o texto de Rubião, servia a comparação com Kafka, autor que entrava para o cânone europeu - o que, contudo, pouco contribuía para compreender o livro e sua novidade. Como o próprio Álvaro Lins reconhecia no artigo do Correio da Manhã, "sob muitos aspectos os contos do sr. Murilo Rubião nada têm a ver com os de Kafka".

Uma crítica melhor elaborada saiu pelas mãos de Otto Lara Resende - companheiro de Murilo, portanto dotado de uma visão mais cuidadosa, ainda que com viés de elogio. Publicada no jornal Estado de Minas em 1947, ela começa apontando o desejo de evasão - a fuga - como força literária. Mas o mundo burguês, conectando todo o globo ao custo de deixar a terra "devastada em todos os sentidos", já não permitia mais a fuga no espaço.

A alternativa, segundo Otto, seria a fuga interior, um "movimento de introspecção" que explorasse o humano e suas questões interiores. E o novo símbolo dessa mudança seria Kafka, com seus heróis do subsolo: solitários, tristes e desesperados, que tentam e fracassam em escapar de si mesmos, do medo e da náusea. A esse herói, tudo é "incompreensível e impossível", contaminando o cotidiano com uma lógica sobrenatural. O absurdo tornava-se algo ordinário.

Esse aspecto fantástico apresentava-se nos contos do livro O Ex-Mágico. Primeiro, pela presença de personagens esquisitos nos moldes do herói kafkaniano: tristes, desamparados e "sem direito à evasão". Apontada por Álvaro Lins, a unidade substancial e formal dos contos é atribuída por Otto a uma lógica pautada na insegurança e no mal-estar, na qual o mistério ou o inexplicável quebram a noção de cotidiano do leitor, substituindo-a por outra em que o inóspito mostra-se verossímil ao real.

O texto comunicaria, segundo Otto, um sentimento "triste e sufocante". Os acontecimentos narrados nos contos - o passageiro de um navio que viaja sem abandonar o porto, o mágico transformado em funcionário público, o homem que acompanha o irmão que se transformou em dromedário - funcionariam como parábolas dotadas de nudez e imprevisto.

Murilo de espantos

É possível acolher o texto de Murilo Rubião como parábolas dotadas de um conteúdo subjacente, afirmaria Davi Arrigucci Jr. na edição especial de junho de 2016 do Suplemento Literário de Minas Gerais. Mas essa seria apenas uma das possíveis leituras de um texto marcado pela "ambiguidade, a deslocação inquisitiva e renovada do olhar".

Portando um entendimento contemporâneo, Arrigucci reforçava o parentesco entre Kafka e Murilo Rubião. Corrigindo os críticos do passado, ele reconhecia camadas mais profundas na literatura do autor de O Ex-Mágico, a começar por um traço de metalinguagem presente nos contos, cuja impotência dos personagens representaria as limitações do ato da escrita e da criação da obra ficcional.

A reelaboração vertiginosa dos mesmos contos por Murilo, em que se mudava a forma da narrativa "sem inventar nada de substancialmente novo", correspondia a uma incessante metamorfose. Esta constituiria o ato central do autor e de sua literatura, movida talvez pela mesma impotência e irrealização que afligiam seus personagens. A modificação - a metamorfose -, identificava Arrigucci, era a matriz temática de Rubião, tomando a forma do fantástico.

Assim como em Kafka, os personagens principais de Rubião jamais se espantavam com o inóspito. As transgressões causadas pelos fatos sobrenaturais - a quebra da causalidade, o desordenamento de presente, passado e futuro, o esbatimento da fronteira entre imaginado e real, ou entre razão e loucura - eram abordadas como fatos corriqueiros.

Se o espanto está ausente no texto, Arrigucci anotava que ele encontraria abrigo no leitor. A literatura de Murilo subverte as regras do jogo narrativo, oferecendo o inóspito como realidade banal de seus personagens para que a leitura crie um efeito de estranhamento e até mesmo um pouco de desconfiança. Nesse deslocamento da normalidade, gera-se o prazer da leitura dos contos de Rubião.

Por mais que tenha se dedicado ao insuperável processo de reelaboração de sua obra - tendo publicado diversas edições de livros, bem como textos em jornais e revistas -, Murilo Rubião legou-nos um conjunto notável de textos e variações. É uma pena que o fanatismo revisionista tenha tolhido sua produtividade.

Cerca de três dezenas de contos sobreviveram ao seu último crivo, contendo a variação de qualidade que ele próprio apontava em autores mais pródigos. Formam um universo literário próprio, fantástico, com pontos excepcionais e outros sem a mesma força narrativa.

A crítica, contudo, ainda peca na análise dos contos desconsiderados pelo autor. Aqui vale ainda a comparação com Kafka, que desejava seus manuscritos destruídos após sua morte - e foi justamente pelo descumprimento desse desejo que o mundo descobriu sua literatura. Os textos "rejeitados" de Murilo Rubião também esperam por um resgate semelhante.




CF Scuo
Escritor
Coletivo literário O Gato Que Pesca